Mulheres Fantásticas do Horror: Alice Guy-Blaché



Sou fã de cinema desde a infância e, como consumidora de materiais acerca da história da sétima arte, algo sempre me chamou muito a atenção: o fato das obras quase sempre falarem sobre o protagonismo masculino. As mulheres estavam presentes, mas sempre de forma discreta. E isso não ocorre somente no âmbito das narrativas cinematográficas. Também é uma realidade na produção das películas. Algumas personagens importantes da história do cinema mundial, que tiveram suma importância em diversos períodos, simplesmente parecem ter sido "apagadas" dos registros históricos. Entre 2007 e 2008, quando comecei a ler muito sobre representação da mulher no cinema, principalmente no gênero terror, tive contato com algumas dessas personagens femininas fascinantes, as quais possuem uma participação fundamental no estabelecimento da sétima arte, e me surpreendeu muito que, de alguma maneira, elas estivesse em um "limbo" cultural. É como se nunca tivessem existido. Como alguém pode ter contribuido tanto e, simplesmente, seja uma espécie de "fantasma"?

Por exemplo, somente ano passado descobri, através de um vídeo de uma amiga, quem era  Alice Guy-Blaché, que é basicamente a MÃE do cinema. Certa vez, Alice resolveu usar as câmeras, que normalmente eram utilizadas para documentar o cotidiano, para contar pequenas histórias. E o mais assustador disso tudo? Nessa "brincadeira, ela criou uma filmografia impressionante, com mais de 400 filmes. Então fica a pergunta?  Como a história de uma mulher tão relevante, considerada a pioneira do cinema, fica "perdida" por tanto tempo? Por esses e outros motivos, a partir de hoje, aqui no Final Girl, vou começar a escrever mais sobre mulheres fascinantes. Para dar início ao Mulheres fantásticas do horror, nesse primeiro capítulo, vamos conhecer um pouco mais sobre a cineasta  Alice Guy-Blaché.

Biografia


Alice Guy-Blaché nasceu em Saint-Mandé (França) em 1º de julho de 1873. A família da diretora tinha negócios no Chile e ela viveu muitos anos na América do Sul, retornando para a França para estudar. A rede de livrarias e a editora da família em terras chilenas acabou indo à falência, o que acabou transformando a vida de Alice. Como seu pai adoecera por causa de seus problemas financeiros, vindo a falecer, a cineasta teve que procurar um emprego como secretária para sustentar sua mãe. Seu segundo emprego, em 1894, a levou para a empresa Comptoir Général de Photographie, a qual foi mais tarde adquirida pelo inventor e industriário León Gaumont, a transformando na Gaumont Film Company.

Apesar de concorrentes, Gaumont era muito amigo dos Irmãos Lumiére. Quando os franceses exibiram pela primeira vez o cinematógrafo na Société d’encouragement pour l’industrie nationale à Paris, Alice foi prestigiar o evento com o chefe e ficou totalmente deslumbrada com o pequeno filme La Sortie de l’usine Lumière à Lyon (A saída das usinas Lumière em Lyon), onde funcionários saiam de uma fábrica. E pensou: por que não contar histórias usando essas câmeras? Em um trecho das memórias da cineasta, que fazem parte do livro Alice Guy Blaché: Lost Visionary, a diretora relatou como começou a colocar suas ideias em prática nos filmes da empresa:

Mas Gaumont, como Lumière, estavam especialmente interessados em resolver problemas mecânicos. Era mais uma câmera para ser colocada à disposição de seus clientes. Os valores educacionais e de entretenimento dos filmes pareciam não chamar sua atenção. No entanto, havia sido criado na ruelle des Sonneries um pequeno laboratório para o desenvolvimento e impressão de pequenas tomadas: desfiles, estações de trem, retratos do pessoal do laboratório, que serviram como filmes de demonstração, mas eram breves e repetitivos — Eu pensei que alguém poderia fazer melhor que esses filmes de demonstração. Reunindo minha coragem, propus timidamente a Gaumont que eu pudesse escrever uma ou duas pequenas cenas e ter alguns amigos atuando nelas. Se o desenvolvimento futuro dos filmes tivesse sido previsto neste momento, eu nunca deveria ter obtido seu consentimento. Minha juventude, minha inexperiência, meu sexo, tudo conspirou contra mim. Eu recebi permissão, entretanto, nesta condição expressa de que isso não interferiria com meus deveres de secretaria. (BLACHÉ, 2002, p.48-49)

Por muito tempo o diretor francês Georges Méliès foi considerado erroneamente como o primeiro diretor de ficção da história, mas antes da estreia de seu primeiro curta, Blaché já havia feito seu primeiro filme com uma narrativa. Mas como ela não chegara a exibi-lo publicamente, o diretor francês ficou com a fama para si. O primeiro exeprimento cinematográfico de Alice foi A Fada dos Repolhos (La Fée aux Choux), concebido em 1896. Depois disso, ela dirigiria todos os filmes narrativos da Companhia Gaumont até 1905. Blaché gostava de experimentar e era fascinada pelo trabalho de Georges Méliès, Georges Hatot, entre outros.  Tanto que, em diversas oportunidades, ela também inventou truques de câmera, como dupla exposição, e outros efeitos para seus pequenos filmes. Além disso, ela também criou o remake. Isso mesmo! A diretora fazia novas versões de filmes dos seus diretores favoritos, e de seus próprios curtas. E não fica só nisso. Sabe aqueles closes da câmera que a gente está cansado de assistir no cinema e que todo mundo atribui ao D. W Griffith? Foi criação de Blaché. Ela passou a usar close-ups no filme La Course à la saucisse (1906). Também criou o lip syncing e foi a pioneira do videoclipe.

Blaché era interessada em todos os aspectos da produção cinematográfica. Procurava locações, organizava os figurinos, escrevia, produzia e dirigia. Em 1910, junto com o então marido Herbett Blaché, imigrou para os Estados Unidos e abriu sua companhia cinematográfica, a Solax Company. Segundo sua biógrafa, Alison McMahan, a diretora ficou nos Estados Unidos até 1922, retornando para a França após o seu divórcio. Passou boa parte da vida escrevendo ficção para revistas e novelizando scripts. Nunca mais dirigiu nenhum filme. Mas seu legado já era bastante impressionante. Entre os anos de 1896 e 1920, segundo o IMDB, a cineasta já tinha dirigido 444 películas. Anos mais tarde, ela retornaria para os EUA para viver com sua filha, onde viria a falecer em 1968.

Blaché e o terror

A diretora francesa explorou vários gêneros do cinema. Fez filmes de ficção, bíblicos, drama, comédia, cinema de atrações, filmes que abordavam o feminismo... E também tem um pé no terror. Em 1900 lançou Turn of the Century Surgery, um curta macabro que poderia muito bem ser o precursor de filmes, como O Albergue (2006) e Jogos Mortais (2004). Adaptou em 1913 o conto O Poço e o Pêndulo de Edgar Allan Poe. Em 1914, foi a vez de The Monster and the Girl. Também explorou o vampirismo em duas ocasiões: The Vampire (1915) e em seu último filme, Vampire (1920).

Apenas com esse breve texto podemos perceber a importância de Alice como realizadora audiovisual. Sua contribuição é indiscutível e seu trabalho propiciou que outras mulheres também pudessem fazer cinema de gênero, como uma das atrizes de se seus filmes, a estadunidense Lois Weber, a qual se tornaria diretora. Weber também foi uma das pioneiras do cinema de horror.

BLANCHÉ, Alice Guy. In: MCMAHAN, Alison. Alice Guy Blanché: Lost Visionary of Cinema.
1º ed. New York: Bloomsbury, 2002. P. 48-49.

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