Terror Brasileiro: O legado Feminino de Zé do Caixão

junho 22, 2019



José Mojica Marins é o pai do cinema de terror brasileiro. Nascido em 11 de março de 1936, o cineasta aprendeu o ofício assistindo filmes. Aos 2 anos de idade, seus pais se mudaram para os fundos do Cine São Estevão, na Vila Anastácio. O garoto passou a infância assistindo películas. Aos 12 anos, ganhou de aniversário uma câmera e com um grupo de amigos começou a filmar o cotidiano do bairro. Aos 13 anos, dirigia seu primeiro curta, O Juízo Final (1949).  Seu primeiro estúdio cinematográfico foi o galinheiro da casa da família, o qual ele chamava de Companhia Cinematográfica Atlas. Antes de ser atraído totalmente para o terror, Mojica arriscou-se em vários gêneros: comédia, aventura, faroeste. O diretor não sabia fazer roteiros cinematográficos profissionais, nem conhecia os nomes pomposos dos movimentos de câmera. O conhecimento de Mojica era gigantesco e prático. E quando ele finalmente se entendia com o diretor de fotografia, tinha resultados impressionantes. A falta de vocabulário técnico nunca o impediu de mostrar a sua genialidade. 


Mojica concebeu o personagem Zé do Caixão através de um pesadelo muito vívido. O sonho foi realmente apavorante. Ele se viu como o coveiro, vestido todo de preto e ele o arrastava para uma cova do cemitério e ia parar no inferno. O susto foi tão impactante que virou filme. Josefel Zanatas se tornaria um dos personagens mais icônicos do país, conhecido até mesmo por quem nunca assistira os filmes de Mojica. O primeiro longa, À Meia-Noite Levarei a Sua Alma, foi lançado em 1964. O diretor vendeu quase tudo eu tinha para que o filme fosse feito. Arriscou tudo e o longa foi um verdadeiro sucesso. Mas não viu um centavo da bilheteria, pois havia vendido os direitos de sua porcentagem, pois estava completamente falido. Mesmo assim, segundo seu biógrafo André Barcinski, Zé foi para a frente do cinema no dia da estreia e não podia acreditar na quantidade de gente que foi ver sua película.


O filme marcou o começo da produção cinematográfica de terror no Brasil e era bastante ousado para a época em muitos aspectos. O cineasta desafiava os dogmas religiosos predominantes, como na épica cena onde Zé do Caixão assiste uma procissão na Sexta-Feira Santa, devorando um pedaço de carne vermelha. E a sequência também impressiona pelo seu requinte técnico. Além disso, muitas das cenas tinham transições e cortes que hoje em dia podem ser considerados extravagantes, mas na época eram tidos como algo muito criativo. Além disso, Mojica e sua equipe trabalharam com sobreposição de negativos, desenvolveram efeitos de maquiagem com pedaços de pão e o resultado nas telas é bastante crível. A montagem lembrava muito a dinâmica de histórias em quadrinhos, uma das fontes de inspiração do diretor. 

O filme é experimental no tema e na forma. No tema, porque inaugurou no Brasil o cinema de horror, gênero que ainda não havia sido explorado pelo nosso cinema, apesar da riqueza de folclore brasileiro de lendas e superstições. É importante salientar que a ousadia de Mojica não se limitou a experimentar com um gênero intocado no país; seu maior feito foi conseguir adaptar os clichês do cinema fantástico para a realidade brasileira. A taberna de À Meia-Noite é autenticamente brasileira; da mesma forma o cemitério, a floresta e a casa da bruxa não tentam imitar modelos anglo-saxões, como fazia na época o cinema de terror italiano, cujos filmes pareciam ter saído de algum estúdio inglês ou americano. (Barcinski ; Finotti, p.174, 2015)

O personagem Zé do Caixão se consolidou de tal maneira no imaginário nacional que, além de dar as caras em outros filmes do diretor, como Esta noite Encarnarei no Teu Cadáver (1967), Exorcismo Negro (1974), entre outros, ainda tornou-se apresentador em duas oportunidades. Foi assim que eu conheci e me afeiçoei pelo trabalho do cineasta. Seguindo a tradição dos programas de televisão estadunidenses, onde personagens do terror apresentam sessões de cinema, Mojica tornou-se o host da sessão cinematográfica vespertina da Band, o Cine Trash. O programa foi exibido entre 1996 e 1997. Junto com suas ajudantes, o coveiro Josefel saia de seu caixão para apresentar os longa-metragens e, é claro, rogar a praga do dia. A partir de 2008, Zé também apresentou no Canal Brasil o programa O Estranho Mundo de Zé do Caixão. O programa trevoso de entrevistas durou sete temporadas.



Mundialmente conhecido — ele é chamado de Coffin Joe no exterior, Mojica tem um legado impressionante no cinema e na cultura nacional. Mesmo que muita gente pense nele apenas por causa de suas longas unhas, as quais ele manteve por muitos anos e que chamavam atenção nos programas de variedades dominicais, esse paulistano tem um currículo que influenciou muita gente, como Ivan Cardoso, Rodrigo Aragão, Marcos deBrito, Dennison Ramalho e um trio feminino muito especial, formado por Juliana Rojas, Gabriela Amaral Almeida e Anita Rocha da Silveira. 

A cineasta campineira Juliana Rojas tem uma carreira sólida ao lado do diretor Marco Dutra. Juntos dirigiram Trabalhar Cansa (2011) e As Boas Maneiras (2017). Os longa-metragens mostram a realidade brasileira, sempre misturados ao terror, que às vezes é mostrado de forma mais visceral e em outros momentos está subentendido na história. É muito legal o modo como os dois trabalham com lendas brasileiras, as quais costumam ser mais populares em cidades do interior e misturam esses elementos ao universo urbano. Em seu filme solo, Sinfonia da Necrópole (2014), Rojas continua explorando a selva de pedra e segue os rumos fúnebres de José Mojica Marins. O filme conta a história de Deodato, um coveiro que não leva muito jeito para a profissão. E nesse universo de caixões e túmulos, acontece uma história de amor musical, onde as pás ditam o ritmo das canções. 



Gabriela Amaral Almeida é outro nome muito importante nessa fase atual do terror. A diretora tem no currículo dois longa-metragens, O Animal Cordial (2017) e A sombra do pai (2018). Almeida trabalha de forma muito perspicaz com questões brasileiras, como a violência, as divisões de classe, as relações pessoais e o terror que nasce a partir de situações limítrofes do cotidiano. Os seres humanos possuem essa natureza animalesca, a qual fica em estado latente, diante de tantas regras que devemos seguir e toda a dinâmica social. E acho que a Gabriela consegue mostrar muito bem o que acontece quando as pessoas sentem que sua sobrevivência está sendo ameaçada. As pessoas são capazes de qualquer coisa.


 Já Anita Rocha da Silveira tem um modo de dirigir muito peculiar, com muitos planos centralizados e tem uma capacidade muito grande de explorar o tédio, a falta de propósito dos jovens, em como pode ser assustador amadurecer. Em seu longa-metragem, chamado Mate-me Por Favor (2015), a diretora explora o vazio adolescente, em um slasher puramente brasileiro, que se passa na maior parte do tempo na Barra da Tijuca. Nos anos 80, era muito comum no cinema de terror aquelas narrativas que expunham o abandono parental. Os pais saiam, viajavam para longe, deixando os filhos à mercê dos monstros. A situação de Bia (Valentina Herszage) é muito parecida. Ela passa mais tempo com o irmão, que fica o dia todo na internet e sua mãe está sempre na casa do namorado. Ela é totalmente desamparada, entediada e faria qualquer coisa para chamar atenção. E é aí que mora o perigo. 



O que eu mais gosto no trabalho das três diretoras é essa mistura de sensibilidade, criatividade e perspicácia de fazer filmes de terror sem mergulhar nos clichês abundantes. São narrativas únicas. Essa nova geração do cinema de terror brasileiro sabe que dá para construir coisas assustadoras a partir da realidade do nosso país. E acho fantástica a maneira que elas encontraram para modernizar a crendice popular, tão inerente em nosso imaginário e que foi explorada por José Mojica Marins em seus longa-metragens. Elas trazem esse assunto para perto de nós, para o nosso dia a dia. Muitas das lendas do país foram disseminadas no interior e essas cineastas contemporâneas se apropriam dessas histórias, dos perigos de viver no Brasil e criam monstros urbanoides, os quais podem estar do nosso lado.

Para ler: 

Zé do Caixão: A Biografia - André Barcinski e Ivan Finotti

Entrevista com Gabriela Amaral Almeida 

Para assistir 

Entrevista com Juliana Rojas: (+) (+

Entrevista com Gabriela Amaral Almeida (+) (+)

Entrevista com Anita Rocha da Silveira (+) (+)

Entrevista com José Mojica Marins (+) (+)

Abertura do Cine Trash (+)

Zé do Caixão e a Sexta-Feira Santa (+)


 

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