O terror psicodélico de Manuel Facal




O cineasta uruguaio Manuel Facal é um artista com um estilo bem próprio. Seus filmes são uma explosão de ousadia, humor, gore e psicodelia. Seu primeiro longa, Achuras, foi lançado em 2003. É o primeiro filme de zumbis do Uruguai. Em 2013, o longa ganhou uma continuação, Achuras 2: Feto Voodoo. Mas a festa não termina por ai. Em 2017, Facal lança Fiesta Nibiru, uma mistura de terror e ficção-científica.

Manuel falou com o Final Girl sobre seus longas e o cinema de terror produzido no Uruguai.
[FG] Manuel. Você tem um estilo muito próprio de filmar. É uma linguagem jovem, uma dinâmica de videoclipe, têm momentos que seus filmes têm uma coisa psicodélica. Como você define seu estilo de fazer cinema?

Eu acredito que a linguagem é a arma fundamental que move o cinema. As ferramentas narrativas estão lá para serem usadas e você não deve ter medo delas. Por sua vez, é um entendimento constante do por que elas estão ali. Antes eu era 100% instintivo e meu objetivo era sempre encontrar o ângulo mais excitante para colocar a câmera. Agora eu paro um pouco mais para me perguntar por que, mas eu tento manter essa emoção viva. Equilibrar a excitação com coerência formal é o que eu mais procuro na hora de representar a encenação.

[FG] Como você começou a se interessar por terror?

Eu diria que na adolescência. Quando criança eu tinha muito medo desse tipo de película. Logo se tornou uma paixão da vida. Com os anos, reafirmo minha crença de que talvez seja o gênero mais integro e puro do cinema.
[FG] Você não tem medo de ousar em suas películas. Seu filme, “Relocos Y Repasados”, que era uma comédia, foi um êxito muito grande no Uruguai. O que te fez voltar para os filmes de terror?

A fusão entre o terror e a comédia é algo que sempre senti como muito próprio. "Relocos" significou optar pela comédia porque no momento queria fazer uma película "séria" e a única forma de conseguir financiamento no Uruguai era fazendo algo que as pessoas pudessem se identificar. Em suma, gosto de ambos os gêneros e não creio que fique definitivamente com um ou com outro, ainda que os aborde de forma separada. Eu gosto deles porque são os únicos filmes que, ao serem exibidos em um cinema, pude escutar e perceber se as pessoas estavam gostando ou não deles.
[FG] Seu filme mais recente, Fiesta Nibiru, é uma história bastante peculiar. Como surgiu essa festa alien na tua cabeça?

De novo, a curiosidade de fundir gêneros e jogar com o tom. Queria fazer uma película que atravessava um caminho claro até a metade e a partir dali adentraria em um terreno mais espesso e inesperado. A história surgiu em um segundo plano, algo que não tinha muito claro o que era, mas que fui descobrindo durante o processo de escrevê-la: uma história cínica sobre jovens desencantados.
[FG] Como você avalia a recepção de suas películas no Uruguai?
São muito diferentes de tudo que se faz ali. O simples fato de serem assim despertaram curiosidade suficiente para gerar um pequeno público de telespectadores que estão fartos do cinema que é frequente no país, especialmente (ou quase) os jovens. E mesmo assim é muito pouco. Por isso decidi me exilar na Argentina.
[FG] Achuras, que inclusive tem uma continuação, é a primeira película de zumbis do Uruguai. E os filmes possuem planos muito interessantes e você não tem medo de exagerar. Tem muito gore, muito humor. Como foi a experiência de filmar os longas? O que você acredita que seus filmes de zumbis têm de diferente dos demais?

Foram como pólos opostos. Eu fiz a primeira quando tinha 20 anos e sem nenhum tipo de experiência e nem noção de como produzir um longa-metragem. Levamos um ano para filmá-la. Quando fizemos a sequência, eu estava fresco da experiência de Relocos e com uma clareza maior de como abordar uma produção desse tipo e assim terminamos de filmá-la em uma semana. Achuras 2 é definitivamente o filme que eu via na minha mente quando quis fazer na primeira e não sabia como chegar nesse resultado. Eles são caracterizados por uma impressão muito mais anárquica e libertadora do que os outros, uma coisa muito adolescente que tentaremos recapturar quando fizermos o 3 em 2023 (a ideia é fazer um a cada 10 anos).
[FG] Em sua opinião, o que falta para que o cinema de terror uruguaio tenha mais espaço?
Eu acho que o espaço que se alcançou internacionalmente, especialmente em festivais, é o que é mais valorizado. Na ausência de uma possibilidade de indústria (somos uma população muito pequena), sempre apelamos para o reconhecimento de fora e acho que há uma certa conformidade com o que foi alcançado a esse respeito. Quanto a atender as necessidades do espectador local, parece que quase não há interesse.
[FG] O que você mais gosta no cinema de terror uruguaio?

Não sei se podemos sequer falar de uma cinematografia de terror uruguaia. Tem havido alguns poucos experimentos, incluindo os meus, nos últimos tempos, mas pouco que se possa destacar. Creio que o mais interessante segue sendo o que fez o diretor Ricardo Islas durante as décadas dos anos 80 e 90, quando ainda era filmado em vídeo analógico e não havia pré-conceitos reais do que um filme uruguaio deveria ser. Filmes como "Plenilunio", "Mala Sangre” e "Rumbo A La Oscuridad" são algumas das mais divertidas que foram feitas no Uruguai.
[FG] O cinema de terror na América Latina, ainda não é um campo muito explorado. Na sua opinião, o que é necessário para que o gênero seja mais competitivo?

As películas de terror são as mais fáceis de se fazer. É um território com poucos recursos. Creio que se forjou uma escola de produção competente e pronta para tudo. O problema está, como sempre, nos sistemas de distribuição. É algo que afeta todo o cinema em um mundo cada vez mais cheio de películas. E assim, como no cinema todo, sempre a marca pessoal ajuda, em deter-se um segundo antes de escrever o roteiro e pensar: "o que tenho para contribuir?" Quanto mais experimentarmos e fracassarmos, mais próximos vamos estar de deixar algo original e de valor real.