Representação da Mulher no Terror - Entrevista com Gabriela Muller Larocca

agosto 18, 2019



Eu sempre me interessei por representação da mulher no cinema de terror, inclusive o nome do meu blog denuncia isso.  Tive oportunidade de pesquisar um pouco sobre o assunto em 2008 e, desde então, sempre que tenho oportunidade, procuro por estudos que estão sendo feitas na área. Nessas minhas andanças pela internet, conheci o trabalho da pesquisadora Gabriela Muller Larocca e fiquei completamente fascinada pela pesquisa que ela desenvolveu em seu mestrado, voltada para a representação da mulher no cinema de terror. Em “O Corpo Feminino no Cinema de Horror: Gênero e Sexualidade nos filmes Carrie, Halloween e Sexta-Feira 13 (1970 - 1980)”, Gabriela transita no universo das personagens femininas dos longa-metragens que fizeram parte do primeiro ciclo do slasher, abordando todos os desdobramentos de sua representação. Atualmente, a pesquisadora continua ativa nessa área. Seu projeto atual, “Do Malleus Maleficarum ao Cinema De Horror: a Representação Da Mulher como Bruxa no Audiovisual dos Séculos XX - XXI (1960 - 2016)”, está sendo desenvolvido em seu doutorado na UFPR. 
Gabriela é, sem dúvida, a maior pesquisadora da área de representação da mulher no terror do país e eu tive a honra de entrevistá-la para esse novo capítulo do projeto Final Chica.

[FG] Você sempre gostou de cinema de terror? Como você começou a se interessar de fato em pesquisar o assunto?

Acho que de certa maneira o horror sempre me fascinou. Quando era pequena, tinha muito medo. Não podia nem ver a propaganda ou pôster de determinados filmes que já ficava sem dormir, mas ao mesmo tempo não resistia dar aquela espiada na seção que tinha na locadora, sabe? Na adolescência, entrei naquela fase que alugava esses filmes para assistir com as amigas depois do colégio e acabei gostando de vez do gênero. Nunca mais abandonei e fui assistindo tudo que podia.
Meu interesse em pesquisar o assunto surgiu no primeiro ano de faculdade, quando um professor mencionou que era possível utilizar o cinema como fonte histórica, citando como exemplo os filmes de zumbi do George Romero. Lembro que fiquei encantada e, no mesmo dia, fui alugar a trilogia dos mortos para rever. Naquele ano eu participava de um grupo de pesquisa coletiva em que cada aluno bolsista precisava desenvolver uma pesquisa individual que poderia ser escolhida de acordo com o seu gosto. Foi aí que resolvi unir duas coisas que eu gostava muito: cinema de horror e História.
 
[FG] Você pesquisou O Massacre da Serra Elétrica na graduação, que é um filme muito denso e polêmico. O que te levou a estudá-lo?

Eu sempre gostei de O Massacre da Serra Elétrica. Desde muito antes de entrar na faculdade já tinha uma grande curiosidade pelo filme, despertada principalmente pelo título. Lembro quando assisti no cinema o trailer do remake de 2003 e pensei “eu preciso assistir esse filme!”. A partir disso fui atrás do original e das continuações.
Na faculdade, quando comecei a estudar as relações entre cinema e História, algumas perguntas vieram à minha cabeça: “o que eu posso estudar a partir do cinema de horror? Qual filme poderia ser interessante como fonte histórica?”. Isso me rendeu muitas madrugadas pesquisando na internet, lendo desde blogs especializados até fichas de filmes na Wikipédia e IMDB. Lembro que fui atrás daqueles livros que reúnem listas e curiosidades de vários filmes de horror que você precisa assistir antes de morrer tentando encontrar algo que poderia ser utilizado na pesquisa.
No meu segundo ano no curso de História, formulei um miniprojeto de pesquisa cujo objetivo era estudar as possibilidades de utilização do horror como fonte histórica e como alguns filmes em determinadas épocas faziam alusão às questões políticas, econômicas, culturais e sociais. Olhando de forma retrospectiva, não consigo lembrar exatamente quando resolvi estudar O Massacre. Parece que fui atraída naturalmente por toda a sua fama e complexidade (risos). Queria um filme de horror famoso para mostrar para as pessoas que esse tipo de gênero deve ser levado à sério como objeto de estudo. Recordo que achei muito material vindo de diversas áreas de conhecimento e isso me animou para estudá-lo. Fui lendo resenhas, artigos, curiosidades e todas as coisas que estavam acontecendo nos Estados Unidos naquele período e pensei: “é esse filme!”. O objetivo inicial era estudar a década de 1970 nos Estados Unidos por meio de quatro filmes de horror: O Massacre da Serra Elétrica (1974), Quadrilha de Sádicos (1977), Despertar dos Mortos (1978) e Armadilha para Turistas (1979). Ficou um projeto muito grande para uma pesquisa de graduação e acabei escolhendo apenas o primeiro.

[FG] Você fez uma pesquisa bastante profunda acerca da representação da mulher no cinema de terror dos anos 70 e 80. As representações, inclusive em décadas anteriores, já eram bastante complicadas. Como tu definiria a construção da mulher feita nessa época no slasher?

Duas coisas sempre me chamaram muito a atenção nos slashers. Primeiro, a repetição da fórmula e o sucesso ao longo dos anos 1980. Segundo, a dicotomia entre as personagens femininas e a violência contra o corpo feminino.
De um lado, temos a final girl, geralmente uma moça boa e virginal que obedece a todas as regras e consegue de alguma maneira sobreviver às atrocidades do enredo (o melhor exemplo para mim é a Laurie de Halloween), e de outro, toda um grupo de jovens extremamente sexualizadas e descartáveis (que raramente lembramos dos nomes ou histórias) que morriam depois de “desobedecer” regras em relação ao sexo, drogas e comportamento. Sem contar os requintes de crueldade e violência direcionadas a esses corpos femininos, assim como a exibição repetida da sua nudez, enquanto os corpos masculinos sempre eram mais poupados disso.
Parecia que essas produções traziam grandes avisos às mulheres: “não faça sexo. Seja uma boa garota. Não desobedeça as regras. Seja tradicionalmente feminina e não tente se libertar demais”. Para mim ficou nítido como essas representações visavam estabelecer um padrão de comportamento feminino a ser seguido. Isso fica ainda mais evidenciado se entendermos de onde esses filmes vem, principalmente o contexto cultural, político e social que estão inseridos. Os Estados Unidos da época de produção dos slashers era um país que tinha passado por todo uma época de “rebeldia” nos anos 1960 e 1970, com os hippies, com o movimento negro, o movimento feminista de segunda onda, o movimento antiguerra e inúmeros outros que contestavam a ordem e as estruturas tradicionais do país. Agora, na década de 1980, era marcado pelo retorno de um conservadorismo militante e religioso, assim como palco de inúmeras guerras culturais, ou seja, de diferentes grupos travando batalhas no campo da educação, nos meios de comunicação, nas leis e em questões de gênero e sexualidade. Acho que isso explica um pouco a construção feminina dos slashers e como esses estereótipos e violência não eram aleatórios.

[FG] Depois dos anos 80, a gente entra em uma época mais "progressiva" nos anos 90 e 2000, onde até a própria figura da emblemática da final girl passa por uma série de transformações, já é permitido que ela possa ter uma sexualidade. Você acha que essas mudanças realmente representam algo positivo ou ainda existem questões problemáticas nas entrelinhas?

O ciclo teen dos anos 1990 e 2000 traz transformações no geral, não apenas nas representações femininas. Apesar de ser visto frequentemente como uma grande repetição dos slashers dos anos 1970 e 1980, esses filmes reconfiguram algumas características dos seus predecessores, se inserindo numa nova década e direcionados à um novo público jovem.
Em relação à final girl, acredito que algumas mudanças realmente foram positivas, como ela possuir uma sexualidade mais ativa, ter uma personalidade “mais forte” e até ser mais “assertiva” do que suas precursoras. Contudo, ainda vejo algumas questões problemáticas, principalmente porque estereótipos sempre são problemáticos, já que reduzem a pluralidade e as identidades de determinado grupo.
Por mais interessantes que sejam essas transformações, devemos sempre lembrar que não são inocentes e completamente revolucionárias. Esse novos slashers adolescentes dos anos 1990 e 2000 tinham interesses comerciais e econômicos claros, visando um público mainstream. Sem contar que a representatividade da final girl e essa “mensagem feminista” que ela traz ainda ficam circunscritas à uma jovem branca e de classe média.

[FG] Há uns meses atrás, a atriz Heather Langenkamp, que é a final girl do primeiro A Hora do Pesadelo, deu uma entrevista, onde ela diz que não gosta desse termo. Que essas mulheres que sobrevivem no final deveriam só ser chamadas de heroínas. E em muitas ocasiões, antes desse termo virar uma espécie de estereótipo a ser seguido nos filmes, fazer parte da cultura pop, eu sempre tive uma sensação que ele não dá conta de toda a complexidade da representação da mulher nesses filmes. E eu queria saber de ti, o que você acha desse termo? Quais são os acertos da pesquisa da Clover e quais são as coisas que você não concorda?

Acho que primeiramente devemos entender o pioneirismo de Carol Clover nesses estudos, sendo que o termo foi cunhado em 1987 e muitas pesquisas foram realizadas desde lá, possibilitando discussões, críticas, inovações e distanciamento do contexto de produção desses filmes. Pessoalmente, o livro dela me ajudou muito durante a pesquisa de mestrado por oferecer uma categoria analítica para entender essas personagens, apontando para questões de gênero e sexualidade que antes eram ignoradas dentro do cinema de horror.
Contudo, acredito que nenhuma categoria analítica é imutável ou imune à críticas. Toda análise é passível de divergências e pessoas que não concordem com ela, é justamente isso que torna o debate ainda mais interessante e rico. Como eu sou do campo da História e a Clover tem muita ênfase na análise psicanalítica, às vezes tenho algumas discordâncias com ela, como por exemplo com a ideia de que a final girl é reconstruída como masculina para eliminar a ameaça do feminino. Para mim, levando em consideração todo o contexto e enredo desses filmes, ela é construída e reconstruída como feminina durante o filme todo.

[FG] Atualmente a gente vê bem mais diretoras fazendo filmes de terror, inclusive explorando subgêneros que eram totalmente dominados por homens, como o filme Revenge, por exemplo. O que você observa de diferente nos filmes das cineastas? Muda o modo como as mulheres são representadas?

Uma das principais mudanças que observo é um aumento na complexidade e diversidade de personagens femininas nas telas. Esses filmes trazem temas densos e lidam com os traumas, medos e situações de suas protagonistas de maneira muito profunda. Isso é bom porque além de fugir dos estereótipos populares no horror, evidencia também a pluralidade e subjetividade dos sujeitos mulheres e suas dificuldades, violências e traumas reais.
Essas mudanças também são resultados de um fortalecimento e popularização do movimento feminista, que encontrou ainda mais voz na internet em grupos, blogs e podcasts formados por mulheres que não assistem mais caladas filmes que nos representam de forma negativa, sexualizada, estereotipada ou violenta.  
Contudo, apesar disso acho que ainda temos um longo caminho a ser percorrido. Não podemos esquecer que o cinema não é uma instância isolada da sociedade, mas que se insere num mundo ainda marcado e dominado por uma mentalidade machista. Logo, ainda temos bastante trabalho no enfrentamento às desigualdades, à misoginia, violência e estruturas patriarcais. Acredito que para mudar drasticamente o modo como as mulheres são representadas no cinema, é preciso mudar e questionar ainda mais essa sociedade que subjuga, diminui e objetifica o feminino em diversos âmbito de sua vida.

[FG] Você está desenvolvendo uma pesquisa em seu doutorado sobre a representação da mulher como bruxa no audiovisual. E existem as mais diferentes conotações para esse tipo de personagem, algumas também ligadas com sexualidade como na tua pesquisa de mestrado. Quando você pensa nessas personagens que você está pesquisando agora, elas pertencem a um universo completamente diferente de representação ou existem semelhanças com as personagens da tua pesquisa anterior?

As bruxas são personagens extremamente complexas que sempre tiveram um recorte de gênero e sexualidade explícito, seja nos tratados dos séculos XV e XVI ou no cinema de horror. Elas encarnam outra face do feminino que é o Mal, a vingança, emoções descontroladas e o contato com o demoníaco e sobrenatural. A bruxa é a personificação da mulher má, resumindo todos os perigos representados pelo feminino. Isso fica muito claro no cinema de horror que traz a bruxa como uma grande antagonista que deseja causar morte, destruição, obter poder, vingança, beleza e juventude a qualquer custo. O estereótipo da bruxa má e diabólica foi construído há séculos passados e traz consigo uma tradição antifeminina e antisexual muito antiga, que data desde as origens do Cristianismo, por exemplo. Ela faz parte de um discurso muito complexo sobre a batalha entre o Bem e o Mal e o papel do feminino nisso tudo.
Apesar de serem muito diferentes das personagens dos slashers, não podemos esquecer que elas ainda são estereótipos femininos no cinema que divulgam uma imagem negativa das mulheres e uma pretensa “natureza feminina” unitária. A diferença com as personagens slashers é que a bruxa foca na malignidade da mulher e em seu potencial de destruição, não no papel feminino tradicional e virginal. Contudo, a mulher má sempre é acompanhada de sua contrapartida, a mulher boa, aquela que é feminina, obediente e casta, ou seja, quase uma final girl (risos).

[FG] Para finalizar, eu queria muito saber qual a tua personagem do terror favorita, a que você mais gosta da representação.

Vish, pergunta difícil! Acho que não tenho exatamente uma personagem feminina favorita. É tão difícil quanto escolher um filme preferido. Apesar de tudo, gosto da Nancy em A Hora do Pesadelo e da Sidney em Pânico, mesmo tendo alguns problemas com a atuação da Neve Campbell. Numa mistura entre horror e ficção cientifica tenho carinho pela tenente Ripley e curti o trabalho de produção e caracterização da Thomasin em A Bruxa. Ah, gostei também da nova versão da Laurie do Halloween 2018


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