[Especial Robert Englund] Freddy's Dead: The Final Nightmare (1991) — Direção: Rachel Talalay

 




Pesadelo Final: A Morte de Freddy (1991) foi anunciado como o último filme da franquia A Hora do Pesadelo. Freddy Krueger, o vilão imortal, finalmente encontraria seu fim. Para anunciar a película, a produtora New Line chegou a promover o velório e o enterro do assassino. Um marketing pesadíssimo para o suposto encerramento da saga de Krueger.


Nesse episódio, Freddy ainda está trabalhando em Springwood. Ele conseguira eliminar quase todos os adolescentes da cidade. A única vítima restante é um jovem que faz de tudo para conseguir sair dos domínios do monstrengo. Esse embate entre John Doe e Krueger é magnífico. É uma mistura de A Hora do Pesadelo com O Mágico de Oz, com direito a Freddy bancando a Bruxa Má do Oeste. Além de tudo isso, rolam várias cenas interessantes antes de John ser mandado para outra cidade, pois Krueger precisa de novas vítimas. Tem o momento Leila Lopes, onde o rapaz cai de um barranco e fica girando até chegar na rodovia, onde é atropelado por um ônibus pilotado pelo mestre dos pesadelos. Nessa parte, o monstrão quebra a quarta parede, coisa que ele já fazia na série Freddy’s Nightmare. Hoje em dia eu encaro esse trecho numa boa, mas quando eu era criança? Era aterrorizante!

O jovem perde a memória e é levado por policiais para um reformatório. Como não lembra de seu nome, ele começa a ser chamado de John Doe, termo que é usado, principalmente pela polícia, para identificar pessoas quando a idade é desconhecida, principalmente em casos de assassinato. Eu sempre fiz a suposição que ele seria, na verdade, Jacob, o filho de Alice. E o site ScreenRant confirmou a hipótese. No roteiro original, Freddy mataria Alice (Lisa Wilcox) e seu filho, o sobrevivente, começaria a ser perseguido por Freddy.

Instalado no reformatório, o rapaz auxilia, mesmo contra sua vontade, os planos de Krueger. Ele  recebe a ajuda da assistente social Maggie (Lisa Zane), que o leva de volta para Springwood para investigar o passado do rapaz. O problema é que outros jovens da instituição tentam escapar, se escondendo na van que leva os dois até a cidade. Freddy, é claro, começa a perseguir os internos impiedosamente. Além disso, um segredo de família será revelado: Freddy tem uma filha.

Eu gostava bastante desse longa na minha infância/adolescência. O filme possui várias referências a outras produções, como Twin Peaks, O Mágico de Oz, videogames, o que é muito bacana. Mas revendo o longa,  percebi que ele possui falhas muito significativas. Por ser dirigido pela Rachel Talalay, uma pessoa que participou de quase toda a franquia, em diferentes cargos, acredito que ela poderia ter aproveitado sua experiência no assunto e dado ao longa um tom bem mais onírico e sério. Pois ela "promete" isso na abertura da película. As primeiras cenas são o puro terror. A morte do John também é fantástica. Mas o tom satírico prevalece e prejudica demais o enredo. Freddy deixa de ser um vilão para protagonizar um comediante de stand-up, onde eventualmente rola um pouco de sangue para a plateia.

A única piada que realmente funciona é a aparição de Johnny Depp, recriando uma propaganda antidrogas muito famosa do governo Regan. O ator sempre teve fama de bad boy e junkie. Nos anos 80, os EUA viviam uma crise financeira gigantesca, a qual fez ruir o famoso “american dream”. O uso de crack começou a se disseminar pelas regiões mais pobres do país, enquanto a cocaína devastava a população mais rica. Nancy, a esposa de Regan, encabeçou então uma série de ações contra o consumo de drogas. Drew Barrymore, inclusive, foi uma voz bem ativa nesse período contra a drogadição. Muito natural que os cineastas do período abordassem essas temáticas. Os roteristas do longa, porém, fizeram isso com uma ironia muito inteligente.




Segundo Brigid Cherry, o ciclo de filmes slasher ofereciam uma reflexão sobre políticas sociais, de classe, e o fracasso da responsabilidade social na era Reaganômica. A franquia A Hora do Pesadelo explorou todos esses temas com muita maestria. Freddy Krueger sempre foi uma espécie de ameaça para os americanos médios, que viviam em uma eterna dicotomia entre parecer viver uma vida perfeita dentro dos limites de suas casas com gramados bem aparados. Só que na realidade, dentro das residências, precisavam lidar com as incertezas do país, frustrações e com a falta de aptidão em cuidar de seus filhos. Os jovens, que só possuíam os sonhos como válvula de escape,  são assombrados por pesadelos terríveis envolvendo seus pais. Em Pesadelo Final, a diretora Rachel Talalay é muito direta quanto a isso. Freddy só se apropria das angústias e da relação conturbada de todos os personagens com suas famílias para assassiná-los. Spencer não tem um pai presente, o qual só compensa a falta de atenção com dinheiro. Carlos perdeu a audição, pois foi torturado por sua mãe. Tracy, por sua vez, foi violentada sexualmente pelo próprio pai. Maggie descobre que o próprio genitor matou sua mãe. Freddy Krueger, como sempre, se mostra como o menor problema dos adolescentes. Ele é uma alegoria assustadora do cotidiano.   Acordados, os jovens precisam enfrentar os pais frustrados e problemáticos. Dormindo, vivenciam um terror inspirado pelos abusos diários que são submetidos pelos seus genitores. 

















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