O horror de Alice Guy-Blaché

 

Sou fã de cinema desde a infância e, como consumidora de materiais acerca da história da sétima arte, algo sempre me chamou muito a atenção: o fato das obras quase sempre falarem sobre o protagonismo masculino. As mulheres estavam presentes, mas sempre de forma discreta. E isso não ocorre somente no âmbito das narrativas cinematográficas. Também é uma realidade na produção das películas. Algumas personagens importantes da história do cinema mundial, que tiveram suma importância em diversos períodos, simplesmente parecem ter sido "apagadas" dos registros históricos. Entre 2007 e 2008, quando comecei a ler muito sobre representação da mulher no cinema, principalmente no gênero terror, tive contato com algumas dessas personagens femininas fascinantes, as quais possuem uma participação fundamental no estabelecimento da sétima arte, e me surpreendeu muito que, de alguma maneira, elas estivesse em um "limbo" cultural. É como se nunca tivessem existido. Como alguém pode ter contribuído tanto e, simplesmente, seja uma espécie de "fantasma"?


Por exemplo, somente em 2018 eu descobri, através de um vídeo no canal Terror de Quinta, quem era Alice Guy-Blaché, que é basicamente a 'MÃE" do cinema. Certa vez, Alice resolveu usar as câmeras, que normalmente eram utilizadas para documentar o cotidiano, para contar pequenas histórias. E o mais assustador disso tudo? Nessa "brincadeira", ela criou uma filmografia impressionante, com mais de 400 filmes. Então fica a pergunta?  Como a história de uma mulher tão relevante, considerada a pioneira do cinema, fica "perdida" por tanto tempo? Por esses e outros motivos, a partir de hoje, aqui no Final Girl, vou começar a escrever mais sobre mulheres fascinantes. Para dar início ao Mulheres fantásticas do horror, nesse primeiro capítulo, vamos conhecer um pouco mais sobre a cineasta  Alice Guy-Blaché.



Biografia


Alice Guy-Blaché nasceu em Saint-Mandé (França) em 1º de julho de 1873. A família da diretora tinha negócios no Chile e ela viveu alguns anos na América do Sul, retornando para a Europa para estudar. A rede de livrarias e a editora que a família da cineasta mantinha em terras chilenas acabou indo à falência, e isso acabou transformando a vida de Alice. Como seu pai adoecera por causa de seus problemas financeiros, vindo a falecer, Alice teve que procurar um emprego como secretária para sustentar sua mãe. Seu segundo emprego, em 1894, a levou para a empresa Comptoir Général de Photographie, a qual foi mais tarde adquirida pelo inventor e industriário León Gaumont, que a transformou na Gaumont Film Company.

Apesar de concorrentes, Gaumont era muito amigo dos Irmãos Lumiére. Quando os franceses exibiram pela primeira vez o cinematógrafo na Société d’encouragement pour l’industrie nationale à Paris, Alice foi prestigiar o evento com o chefe e ficou totalmente deslumbrada com o pequeno filme La Sortie de l’usine Lumière à Lyon (A saída das usinas Lumière em Lyon), onde funcionários saiam de uma fábrica. Ela então pensou: por que não contar histórias usando essas câmeras? Em um trecho das memórias da cineasta, que fazem parte do livro Alice Guy Blaché: Lost Visionary, a diretora relatou como começou a colocar suas ideias em prática nos filmes da empresa:

Tanto Gaumont, como os Lumière, estavam especialmente interessados em resolver problemas mecânicos. Era mais uma câmera para ser colocada à disposição de seus clientes. Os valores educacionais e de entretenimento dos filmes pareciam não chamar sua atenção. No entanto, havia sido criado na ruelle des Sonneries um pequeno laboratório para o desenvolvimento e impressão de pequenas tomadas: desfiles, estações de trem, retratos do pessoal do laboratório, que serviam como filmes de demonstração, mas eram breves e repetitivos — Eu pensei que alguém poderia fazer melhor que esses filmes de demonstração. Reunindo minha coragem, propus timidamente a Gaumont que eu pudesse escrever uma ou duas pequenas cenas e ter alguns amigos atuando nelas. Se o desenvolvimento futuro dos filmes tivesse sido previsto neste momento, eu nunca deveria ter obtido seu consentimento. Minha juventude, minha inexperiência, meu sexo, tudo conspirou contra mim. Eu recebi permissão, entretanto, nesta condição expressa de que isso não interferiria com meus deveres de secretaria. (BLACHÉ, 2002, p.48-49).

Por muito tempo o diretor francês Georges Méliès foi considerado erroneamente como o primeiro diretor de ficção da história, mas antes da estreia de seu primeiro curta, Blaché já havia feito seu primeiro filme com uma narrativa do tipo. Mas como ela não chegara a exibi-lo publicamente, o diretor francês ficou com a fama para si. O primeiro exeprimento cinematográfico de Alice foi A Fada dos Repolhos (La Fée aux Choux), concebido em 1896. Depois disso, ela dirigiria todos os filmes narrativos da Companhia Gaumont até 1905. Blaché gostava de experimentar e era fascinada pelo trabalho dos diretores Georges Méliès, Georges Hatot, entre outros.  Tanto que, em diversas oportunidades, também inventou truques de câmera, como dupla exposição e outros efeitos para seus pequenos filmes. Além disso, ela também foi a invetora do remake. Isso mesmo! A diretora fazia novas versões de filmes dos seus diretores favoritos e de seus próprios curtas. E não fica só nisso. Sabe aqueles closes da câmera que a gente está cansado de assistir no cinema e que todo mundo atribui ao D. W Griffith? Foi criação de Blaché. Ela passou a usar close-ups no filme La Course à la saucisse (1906). Também criou o lip syncing e foi a pioneira do videoclipe.

Blaché era interessada em todos os aspectos da produção cinematográfica. Procurava locações, organizava os figurinos, escrevia, produzia e dirigia. Em 1910, junto com o então marido Herbett Blaché, imigrou para os Estados Unidos, e abriu sua companhia cinematográfica, a Solax Company. Segundo sua biógrafa, Alison McMahan, a diretora ficou nos Estados Unidos até 1922, retornando para a França após o seu divórcio. Passou o resto da vida longe dos sets de filmagens,  escrevendo ficção para revistas e novelizando scripts. Nunca mais dirigiu nenhum filme. Mas seu legado já era impressionante. Entre os anos de 1896 e 1920, segundo o IMDB, a cineasta já tinha dirigido 444 películas. Anos mais tarde, ela retornaria para os EUA para viver com sua filha, onde viria a falecer em 1968.

BLANCHÉ, Alice Guy. In: MCMAHAN, Alison. Alice Guy Blanché: Lost Visionary of Cinema.
1º ed. New York: Bloomsbury, 2002. P. 48-49.

Blaché e o terror


A diretora francesa explorou vários gêneros do cinema. Fez filmes de ficção, bíblicos, drama, comédia, cinema de atrações, filmes que abordavam o feminismo... E também é uma pioneira do horror. Em 1900, lançou Turn of the Century Surgery, um curta macabro que poderia muito bem ser o precursor de filmes, como O Albergue (2006) e Jogos Mortais (2004). Adaptou em 1913 o conto O Poço e o Pêndulo, escrito por Edgar Allan Poe. Em 1914, foi a vez de The Monster and the Girl. Também explorou o vampirismo em Vampire, sua última produção, lançado em 1920.

Apenas com esse breve texto podemos perceber a importância de Alice como realizadora audiovisual. Sua contribuição é indiscutível e seu trabalho propiciou que outras mulheres também pudessem fazer cinema, como uma das atrizes de se seus filmes, a estadunidense Lois Weber, a qual também se tornaria diretora. Weber, assim como Blaché, foi uma das pioneiras do cinema de horror.

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