Horror norte-coreano: Pulgasari (1985)


 




O cinema sempre foi uma importante ferramenta de propaganda de guerra. Estados Unidos, União Soviética e Alemanha sempre utilizaram filmes durante seus conflitos, principalmente quando era necessário remodelar o imaginário da população. E não estou falando somente de longa-metragens propagandísticos evidentes como Triunfo da Vontade (1935), dirigido por Leni Riefenstahl, um verdadeiro marco da propaganda de guerra nazista. Películas consideradas mais” inocentes” também são utilizadas para modificar o pensamento popular. Um exemplo disso são os filmes Top Gun (1986) e Águia de Aço (1985). Essas películas de ação até parecem ter um subtexto inofensivo, mas ajudaram na consolidação de um novo inimigo a ser combatido pelos EUA: os árabes. 
 
 
Top Gun, porém, é apenas um de uma série de filmes militares conservadores da época [...] Juntos esses filmes preparavam o país para a Guerra do Golfo ao celebrarem as virtudes do armamento high-tech e do heroísmo militar, criando um inimigo árabe para substituir o arquiinimigo soviético e fazendo propaganda da política externa de Regan e Bush. Portanto, assim como os filmes hollywoodianos do fim dos anos 1970 preparavam o país para a hegemonia conservadora e militarista dos republicanos hegemônicos. Águia de Aço (Iron Eagle) I (1985) e II (1988) profetizava a troca do inimigo comunista pelo arquiinimigo árabe. Juntos os dois filmes retratam o início da distensão nas relações com a União Soviética e a produção de um novo super inimigo, que acabou por ser encarnado por Saddam Hussein e o Iraque e foi misteriosamente profetizado em Águia de Aço I e II. Em Águia de Aço II, porém, os inimigos árabes não têm voz, e na maioria das vezes não têm rosto, o que os desumaniza, convertendo-os em algarismos que ameaçavam, mas estão abaixo da condição humana [...]. Mais um filme anti-árabe da época Regan/Bush é Comando Delta (The Delta Force, 1986), que usa a forma do filme catástrofe para difamar os árabes num relato ficcional do sequestro de um jato por palestinos: os “terroristas” são absolutamente abjetos, e o filme lança mão do exagero caricatural para esboçar o retrato de judeus, israelense e americanos “bonzinhos” ameaçados pelos palestinos “malvados”. (KELLNER, 2001, p.115-118) 


Na Coreia do Norte não foi diferente. Eles também tentaram utilizar o cinema para essa finalidade, mas a maneira que isso foi construído beira o surreal. O ex-ditador norte-coreano Kim Jong-il era um grande entusiasta do cinema. Assim como Adolf Hitler, ele acreditava no grande potencial que a sétima arte possuía como instrumento de propaganda. Jong-il era completamente apaixonado pela sétima arte e possuía um acervo com mais de 15.000 películas, incluindo produções como Sexta-Feira 13 e Rambo.

Em 1978, Jong-il ainda não havia assumido a presidência da Coreia. Era apenas o filho do presidente do país. Em seus primeiros anos no poder, seu genitor havia criado dois departamentos cinematográficos: o Centro de Produção Nacional de Cinema e o Comitê norte-coreano de teatro e cinema.  Jong-il passaria a gerir esses organismos a partir da década de 70. Ele assumiu os departamentos  e decidiu que o país também deveria produzir seus próprios longa-metragens. Até ai tudo bem! Mas a solução encontrada pelo filho do ditador foi pouco ortodoxa. Ele sequestrou um diretor e uma atriz da Coreia do Sul para que eles produzissem filmes para ele. 

 

Shing Sang-ok era um dos diretores mais populares da Coreia do Sul. Era conhecido como o "príncipe do cinema coreano" e foi um dos destaques da chamada era de ouro cinematográfica daquele país (1950 e 1960). Na época, era casado com a atriz Choi Eun-hee e estabeleceram uma parceria artística muito popular. Ambos fundaram a produtora cinematográfica Shin Film. Os negócios iam bem, mas começaram a colapsar após a implementação de um sistema político mais autoritário na Coreia do Sul. Leis rígidas começaram a impactar a produção cinematográfica e os filmes eram duramente censurados. Caso alguma produção violasse alguma das prerrogativas governamentais, o diretor perdia o direito de produzir novos longa-metragens. 

Esses desmandos provocaram a falência da produtora. Shin também fora acusado de sonegação de impostos. Ele viu sua carreira prodigiosa se esvair por suas mãos. Para piorar a situação, segundo o pesquisador Paul Fischer, Shin se envolveu em outra polêmica: adulterou uma cópia do longa-metragem Monkey Goes West, produção dos Shaw Brothers, famoso estúdio de Hong Kong. Sang-ok adicionou algumas cenas estreladas por atores sul-coreanos ao longa e passou a anunciar a obra como uma coprodução entre os dois países. Foi processado, teve que pagar uma indenização, mas mesmo assim conseguiu autorização para lançar o filme no território sul-coreano. Segundo Fischer, isso não teria sido um caso isolado. Depois de tantos problemas na justiça, seu estúdio foi finalmente fechado por ordem do general Park Chung-hee em 1978.
 
Além da crise profissional, o casamento entre Choi Eun-hee e Shin Sang-ok chegou ao fim em 1976, após uma traição pública do diretor. Com o fim do relacionamento, a carreira de Eun-hee começou a entrar em uma derrocada, graças ao estigma de ser uma mulher divorciada na sociedade sul-coreana. Em 1978, ela recebe uma ligação de um suposto produtor de cinema de Hong Kong, oferecendo uma oportunidade em uma produção do território. Eun-hee desembarca na ilha chinesa e é sequestrada por militares norte-coreanos. Tudo não passava de um plano orquestrado por Kim Jong-il

Shin partiu para Hong Kong na tentativa de descobrir o paradeiro de sua ex-esposa, visto que estava sendo acusado de ser o responsável pelo desaparecimento da atriz. Ele teve o mesmo destino. Foi sequestrado pelo sistema de inteligência norte-coreano ao desembarcar na ilha. Ele foi mantido por um bom tempo em isolamento e, em uma medida desesperada, tentou fugir de seus sequestradores. Imediatamente, o cineasta foi mandado para a prisão, onde ficou até 1983, vivendo em condições totalmente sub-humanas. Nesse ano, Kim Jong-il começa a orquestrar seu plano e promove um jantar, reunindo novamente Eun-hee e Sang-ok. Ambos foram obrigados a se casar novamente e foi iniciada a concepção dos longa-metragens. Ao todo, entre 1983 e 1986, Shin dirigiu 7 filmes e produziu outros 13. Um deles, por sinal, é o primeiro (e único) longa-metragem fantástico da história norte-coreana, Pulgasari (1985).
 
O longa conta a história de um povo reprimido por um rei tirano. Em dado momento, o monarca começa a perseguir aldeões, saqueando todo o metal existente nos vilarejos. O ferreiro local recebe a ordem de construir armas com aqueles utensílios, mas não acata o pedido do líder. Logo, ele é mandado para a prisão, onde não recebe nenhum tipo de alimentação. Sua filha tenta salvá-lo, mas ele usa a comida recebida para criar uma pequena escultura do monstro Pulgasari. Ele faz um pedido aos deuses para que aquela criatura possa defender a população contra a violência do rei. Ele acaba falecendo, vítima de inanição, e sua filha leva a pequena figura para casa e, ao ferir-se com uma agulha, um pingo de sangue cai sobre o simulacro e ele ganha vida. O monstrengo passa a devorar qualquer pedaço de ferro que vê pelo caminho e logo torna-se uma criatura gigantesca. Ao contrário de outros personagens semelhantes, como Godzilla, Pulgasari não é um inimigo a ser combatido. Ele ajuda a população do vilarejo a se defender da tirania do monarca. O longa é um remake de uma produção homônima sul-coreana lançada em 1962 e baseia-se na lenda do Bulgasari, um monstro devorador de ferro. Seu nome significa “impossível de matar”. Segundo a crendice popular, se você fizer uma pintura de Bulgasari em sua casa, ela será protegida contra incêndios e desastres naturais. 

Tive a oportunidade de assistir Pulgasari e, apesar do amadorismo do elenco, é um filme bastante original. O longa possui um roteiro bem objetivo e a edição é bem dinâmica. Os efeitos especiais também são satisfatórios. Tanto que, para transformar a criatura em algo crível, Kim Jong-il contratou um dos maiores especialistas em efeitos especiais do Japão, Teruyoshi Nakano. O artista nipônico havia trabalhado em várias produções do estilo “tokusatsu”, que envolvem o uso de muitos efeitos e pirotecnia. Dentro desse universo, existe o kaiju eiga, um subgênero repleto de filmes de monstros gigantes. A principal estrela, sem dúvida, é a criatura Godzilla (Gojira/1954). Nakano foi o responsável pelos efeitos especiais de cinco sequências do monstro japonês, incluindo O Retorno de Godzilla, lançado em 1984, e que seria a inspiração para a criação de Pulgasari. Teruyoshi não foi a única aquisição do elenco de O Retorno de Godzilla. O ator Satsuma Kenpachiro, que interpretou Godzilla em duas oportunidades, dá vida para Pulgasari. 
 
Ao criar esse longa, Kim Jong-il tinha como objetivo apresentar, de forma simbólica,  o suposto poderio da Coreia do Norte, mostrando uma população que se une para enfrentar a ameaça capitalista, a qual é representada pelo rei.  Mas acredito que isso não funcionou e o filme pode ser lido de outra forma. No fundo, o longa reflete a própria repressão do  estado norte-coreano. O gigante Pulgasari representa a esperança de que um dia a população será libertada da ditadura da família Kim.

Apesar de toda a megalomania de Kim, Pulgasari foi um verdadeiro fracasso na Coreia do Norte. Só passou a receber visibilidade na década de 2000, transformando-se em objeto de culto nos Estados Unidos e Japão. Quanto a Shin Song-ok e Choi Eun-hee, o casal de artistas só conseguiria fugir da Coreia do Norte em 1986. Receberam asilo nos Estados Unidos e só retornaram para a Coreia do Sul em 1994. Eles temiam que, por causa dos filmes dirigidos por Shin na Coreia do Norte, o governo sul-coreano não acreditasse em seu sequestro. 
 
 

 
O diretor Shin Sang-ok, o ditador Kim Jong-il e a atriz Choi Eun-hee
                          O diretor Shin Sang-ok, o ditador Kim Jong-il e a atriz Choi Eun-hee
 
 
Livros citados: 
 
A Cultura da Mídia (Douglas Kellner/2001) 
Uma Produção de Kim Jong-il (Paul Fischer/2016)

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