[Entrevista] Alejandro Yamgotchian: Um bate-papo sobre o Montevideo Fantástico e terror uruguaio





Hoje, no Final Chica, entrevisto o jornalista, crítico de cinema, diretor e programador do Montevideo Fantástico, Alejandro Yamgotchian. O Montevideo Fantástico é um dos mais importantes festivais de cinema de fantasia da América Latina. Sua primeira edição ocorreu em 2005. De lá pra cá, o evento serve de janela tanto para produções independentes uruguaias, quanto para longas estrangeiros. Alejandro fala sobre a mostra de cinema e sobre suas impressões acerca do cinema de terror uruguaio.

[FG] Alejandro, como começou sua participação com o cinema de terror?

 Como um simples espectador que se tornou um ávido consumidor de cinema e detetive de lojas de vídeo. O terror era algo atraente e, ao mesmo tempo, muito desafiador. Tínhamos que enfrentar vários obstáculos: ver até onde ou quanto poderíamos ter medo, tentar fazer com que nossos pais nos deixassem assistir o que eles viam à meia-noite na televisão, e até mesmo sermos capazes de acessar sessões nos cinemas e que eram estritamente proibidos para menores (décadas de 1970 e 1980), mas que mais tarde pudemos vê-los nos cinemas de bairro, em cópias um tanto lascadas.

[FG] Como surgiu o Montevideo Fantástico?
 
O festival é um prolongamento do que sempre tentei fazer como jornalista e crítico. Difundir e chamar um pouco a atenção sobre o cinema independente de verdade, diferente, que ainda não era conhecido, colocando mais ênfase na história, na substância do roteiro e não tanto na embalagem, homenagens e reciclagens. O mesmo aplico para a ficção científica. Sempre foi prioridade no festival a ficção-científica. E no começo do novo milênio não havia um evento com essas características no Uruguai. Com bastante sacrifício e inspirados pelo movimento que começava a ser gerado no festival-irmão Buenos Aires Rojo Sangre, pode-se realizar o primeiro Montevideo Fantástico e com boa resposta do público.

[FG] Você acredita que o festival ajudou a mudar a forma que as pessoas veem o cinema fantástico no Uruguai?
 
Sim. O espectador uruguaio, em geral, sabe que nestes movimentos se pode encontra um cinema diferente e de qualidade. Que eles possam gostar do cinema fantástico ou não, já é outra coisa e também se compreende. O grande fator comum, que se tem dado durante as já onze edições do festival, é que sempre aparecem curiosos, espectadores que não estão muito afinados com o terror ou com a ficção-científica e acabam tendo algumas surpresas e começam a vir com assiduidade. Honestamente, não há um público militante jovem e numeroso no Uruguai que se volte para esses gêneros em festivais, salvo as comédias bizarras, que gostam muito. A televisão a cabo e o Netflix, por exemplo, não tem materiais suficientes (dos bons), deixando de lado clássicos do gênero. E na internet há tanto material, que algum se acaba perdendo. É por isso que os festivais são necessários, não apenas como vitrais, mas também como filtros, para poder fazer uma seleção rigorosa onde o amante do horror e da ficção científica tenha a oportunidade de conhecer outro tipo de cinema.

[FG] Você sabe qual foi o primeiro filme de terror feito no Uruguai? Você chegou a vê-lo?
 
Sim, chama-se Crowley, um longa que aconteceu em 1987, em Colônia do Sacramento. E seu diretor é Ricardo Islas, um uruguaio que atualmente mora em Chicago. É um trabalho ultra-independente, de vampiros. Um ano antes ele havia feito o curta-metragem Possession.

[FG] O que você mais gosta no cinema do terror uruguaio?
 
A habilidade, a engenhosidade que os cineastas e suas respectivas equipes têm de fazer tanto com tão poucos recursos. Aplica-se ao cinema uruguaio em geral. A carreira do Ricardo Islas é algo incrível, um homem que está prestes a completar 50 anos, mas filma desde adolescente, sempre fiel ao cinema que mais gosta e caracterizado pela solidez de suas histórias. Ele é um lutador de cinema e com muita imaginação.

[FG] Uma coisa que eu acho muito impressionante no cinema fantástico uruguaio é que os filmes mostram muitos elementos locais. Por exemplo, Ricardo Islas filmava em Colônia e ele mostrava todo o lado camponês, ele não tentou imitar o estilo americano / britânico, que era comum. Existiam elementos universais, mas existia a intenção de fazer algo original. Você acha que o atual cinema uruguaio continua nessa direção ou quer imitar mais os moldes de Hollywood?
 
Pode haver uma tendência para o cinema industrial, embora com condimentos nativos que muitas vezes acabam sendo impostos às diferentes histórias. Mas, ao mesmo tempo, há jovens realizadores que vão ao resgate do cinema clássico, o da velha escola, onde aparecem subgêneros como o giallo, o vampirismo, a ficção científica de corte humanista e de denúncia social. O inimigo passa a ser uma metáfora que vai desde situações pontuais, pequenas e chega aos grandes problemas do mundo atual. Não se está produzindo tanto. Há etapas. Dentro do festival tivemos edições recentes onde não se chegava a formar um só lote de curtas uruguaios em competição. Ultimamente, por sorte, a coisa mudou e estão produzindo materiais.

[FG] O que deve mudar para tornar o filme de terror uruguaio mais atraente no país e internacionalmente?
 
No Uruguai, por se tratar de uma pequena praça, um filme sempre transcenderá, do mais comercial ao mais alternativo, porque há circuitos prontos para exibi-lo, seja através de cinemas de primeira linha, seja em exposições ou festivais. Ele acaba sendo conhecido, no final das contas. Lá fora, já depende de produtores ou distribuidores que consigam fazer a extensão desses mesmos circuitos, muito maiores. Deixando de lado as comédias bizarras, muito poucos filmes de terror foram feitos. E ficção científica eu acho que quase nada. O pouco que foi feito foi bom, em geral, porque há diretores que gostam do gênero, que viram muitos filmes, que se importam em fazer um bom trabalho. De como vai, o que deve mudar para tornar os filmes de terror uruguaios mais atraentes dentro e fora do país, é que tenha mais pessoas dispostas a fazer filmes de terror. Incrivelmente, não se passa por uma situação de qualidade, mas de quantidade.