O terror argentino de Demián Rugna





Hoje o Final Chica te leva até a Argentina. Conversei com Demián Rugna, o diretor do longa-metragem Aterrorizados (Aterrados). Foi um bate-papo muito legal sobre o filme, que fez muito sucesso entre os brasileiros, suas influências como cineasta e sua opinião sobre o cinema de terror feito em terras argentinas.
[FG] Como você começou a se interessa por cinema de terror? Quais são as tuas influências?
Eu, desde criança, desenhava histórias copiando filmes que me fascinavam quando era pequeno: Alien, Sexta-Feira 13, Tubarão, V, Criaturas, A Hora do Pesadelo, O Exterminador do Futuro, etc. Enquanto brincava com meus brinquedos, imaginava que estava fazendo filmes e comprava tempero vermelho para mesclar com água e fabricava meu próprio sangue. O cinema me levou para a literatura, através de Stephen King e passava lendo Lovecraft, Poe e Clive Barker em minha adolescência. Creio que tudo isso que nomeei foram minhas grandes influências. E talvez um nome em particular. Foi uma série de obras dos anos 80, quando ainda era criança e ao invés de ser fanático pelo Homem-Aranha ou Batman, eu era fanático pelo Jason Voorhees.
[FG] Aterrorizado é um filme fantástico. Assisti no Netflix e imediatamente comecei a fazer uma publicidade para meus amigos. Existem muitos clichês no subgênero de assombração. É difícil fazer um filme de atividade paranormal original?
Obrigada! O que é difícil é encontrar um bom roteiro. Creio que hoje em dia tudo já foi visto. O valioso é usar os mesmos elementos que já conhecemos em uma história mais original. A pior coisa que pode acontecer com um filme de terror é ser previsível, que se perca a surpresa. Para mim, usar clichês é válido se você conseguir surpreender ou pegar o espectador desavisado. O terror é como o humor, se alguém lhe conta uma piada e no momento em que você está contando, você adivinha o final da piada, então não será engraçado. É uma questão de redação, roteiro e atuação, essas são as ferramentas do diretor. Eu sinceramente não sei se eu poderia fazer um bom filme de terror com um roteiro ruim. Eu gostaria de tentar, mas acho que seria impossível para mim. Seja paranormal ou não. O que é bom sobre o paranormal é que ele oferece possibilidades mais criativas do que outros subgêneros. Precisamente porque eles não têm uma forma definida e tornam as leis e os códigos amplos.
[FG] Eu preciso te dizer que Aterrorizados mexeu muito comigo. Eu sou calejada quanto a filmes de terror, mas fiquei com muito medo. A cena do banheiro, em particular, me deixou de boca aberta. É muito original, estupenda. Preciso te perguntar. Como foi gravar aquela cena?
Eu fui cauteloso e consegui reservar 2 dias e meio de filmagens para aquela cena. Calculei que o filme levaria 25 dias de gravações e a cena comeu 10% das filmagens e durou 2 minutos. Foi estranho, a única cena no estúdio, metade das coisas que propus não funcionavam como eu queria, então tivemos que improvisar muito com o manequim da mulher. Tenho sorte de ser montador, então sabia que tinha alguns momentos gloriosos, mas eram muito poucos. O resto sabia que não ia servir. Creio que foi fundamental uma boa pós-produção para resgatar tomadas perdidas e roubar tomadas que nunca fiz nos planos. Teve um momento muito forte, pois tínhamos a atriz presa em arnês. E o arnês não funcionava bem e na parte de cima a pobre atriz se batia de verdade contra as paredes e isso lhe causava muita dor. Ela gritava para que parássemos, mas o estúdio era muito grande e estava longe de quem operava o arnês. Não entendiam o que dizia a mulher, sequer escutavam meu grito de que parassem de batê-la contra as paredes. Pensei que tudo ia ir ao inferno em algum momento.
[FG] Uma coisa que me deixou muito impressionada na película é a ambientação. Pois você fica naquele clima do terror o tempo todo. Ainda que não esteja acontecendo nada de paranormal. É muito mais subjetivo do que algo que realmente você pode ver. E isso não é uma coisa fácil. Quero saber de ti: Isso foi uma consequência do roteiro ou algo que foi criado minunciosamente?
Penso que sempre foi uma consequência do roteiro. Eu tomei a película como um grande drama. Foi também a consequência de colocar a cena do banheiro no início do filme. Isso, creio que predispõe a todos os espectadores a não querer voltar a passar por isso. Também sempre tentei que nas atuações exista o maior realismo possível. Nos diálogos e nas reações dos personagens. Mas sempre foi claro para mim: o tom dramático do filme iria fazer que o humor brotasse naturalmente sem forçá-lo. A veracidade das situações iam dar a credibilidade ao terror e a cena do banheiro no começo ia predispor o espectador para toda a película.
[FG] Sua primeira película (The Last Gateway) é sobre um homem que tem um portal para o inferno no estômago. É algo muito criativo. Você poderia falar um pouco como foi o processo de criação dessa película?
(Risos) Tenho uma hérnia no estômago. Isso sempre gerou muita acidez estomacal quando era jovem. Entendo que ali nasceu a ideia. The Last Gateway foi minha primeira película, eu tinha somente 25 anos e me sinto muito orgulhoso de fazer uma película desse estilo em meu país. Era um momento onde quase nada era feito no gênero de terror e sobretudo, com a ambição que tinha nessa película. Haviam efeitos especiais o tempo todo, todos os dias. A maioria dos atores nunca haviam feito nada do gênero e desconfiavam todo o tempo do que eu estava fazendo. Jamais esquecerei que o monstro no final da película, quando comecei a fazer a primeira tomada com ele, o ator que estava vestido de monstro desmaiou e começou a ter convulsões. Tiveram que arrancar o traje em pedaços e levá-los ao hospital. Então terminei essa película com restos de monstro. Eu queria morrer, mas não tínhamos outra maneira, nem dinheiro para voltar a fazer o monstro. Foi uma loucura. Quem nos deu o dinheiro pediu que fosse em inglês para poder vender no exterior, porque na Argentina era impossível vendê-la, então tivemos que fazer um casting de atores argentinos que falassem bem inglês. Isso foi duríssimo. E creio que foi a falha da película. Um grande erro que custou que ninguém reconheça a minha primeira película como ela merecia no meu ponto de vista e isso gerou minha primeira grande frustração com o cinema.
[FG] Como você vê o cinema de terror na Argentina? O que você gosta mais nas películas de terror argentino?
Vejo que cresceu muito em quantidade e isso faz que cresça também em qualidade. Por sorte, tivemos aqui 24 anos sem estrear nos cinemas uma película de terror nacional. De 2008 até agora estrearam muitíssimas. Foram dez anos de crescimento e creio que agora podemos começar a dizer que há produtos que se consolidam. Acho que o público costuma não assistir ao cinema argentino porque está acostumado a assistir a filmes de entretenimento de Hollywood, mas acho que chegou a hora de dar a eles mais uma opção. Há muitos preconceitos em nosso próprio público também com o nosso próprio cinema, o que dá muita raiva e faz que você fique muito exposto ao fazer o gênero, porque a exigência é muito alta. O que eu mais gosto no cinema de terror na Argentina? Que ele exista. E isso é o suficiente para mim agora. Foram muitos anos de luta para que o instituto apoiasse esses conteúdos e também gosto que ele seja diverso. Isso sim.