Sangue na pista de dança: Quando a rainha do baile é um monstro






As rainhas do baile de formatura são um clichê hollywoodiano. Apesar das prom queens serem comuns apenas em países como Estados Unidos, Canadá, Inglaterra, Austrália, essas personagens acabaram se enraizando no imaginário mundial graças ao cinema. Nas telonas, elas ganharam as mais diversas representações e aparecem em diferentes subgêneros: desde comédias até filmes de terror. Ser uma rainha do baile pode significar muitas coisas no discurso cinematográfico: ser uma redenção dos anos de horror vividos na high school, quando a menina “invisível”, após anos de bullying, consegue a coroa, e humilha aqueles que faziam piadas dela. Pode ser apenas a coroação da garota bonita e popular. E também pode ser algo muito obscuro, como acontece nos longa-metragens da franquia Prom Night, em Carrie (1976), e The Loved Ones (2009).






Em A Morte Convida para dançar (Prom Night /1980), Jamie Lee Curtis interpreta Kim. Ela é uma garota comum, vivendo dilemas adolescentes que não fogem da normalidade. A sua família (o pai é diretor da escola onde ela estuda), porém, tentam tocar a vida e esquecer uma tragédia que se abateu sobre eles dez anos antes, quando uma das filhas foi encontrada morta. Kim e seu irmão, Alex (Michael Tough) parecem ter superado esse trauma. As únicas pessoas que sabem a verdade sobre a morte da garotinha são os envolvidos no crime e o espectador, pois o filme tem início com um flashback do fatídico dia, quando um grupo de crianças faz uma brincadeira de mau gosto com a criança, e ela acidentalmente cai da janela de um prédio abandonado.
 
Um clima estranho está no ar, pois a ex-namorada de Nick parece querer arruinar a noite da prom queen, mas a garota é o menor problema de Kim. Quando finalmente o baile começa, um assassino em série está à solta pelo prédio do colégio, e promove um verdadeiro banho de sangue enquanto os alunos se divertem. Ele vai eliminando todos os jovens que estavam envolvidos na brincadeira que resultou na morte da irmã da personagem. Quando o serial killer ataca Nick, Kim acaba se transformando em uma final girl acidental. Ela acerta o assassino, desvenda a identidade do “monstro”, e consegue evitar que o namorado seja assassinado.


Kim é totalmente fora dos padrões esperados para uma garota sobrevivente de um filme de terror. E não é a única personagem fora da curva protagonizada por Jamie Lee Curtis. Depois de viver Laurie Strode em Halloween (1978), a qual era uma jovem tímida, reservada, sem interesse por garotos (características essas que acabaram se tornando o padrão de comportamento que deveria ser seguido por uma final girl para que ela sobrevivesse no final do filme no cinema estadunidense), nos longas canadenses de horror Prom Night (1980) e Terror Train (1980), Curtis foge do estereótipo e interpreta meninas que confrontam o monstro, mas são adolescentes comuns, iguais a suas amigas que normalmente são as primeiras a morrer nas películas por causa de sua sexualidade ou pelo consumo de álcool e drogas. Tanto Kim quanto Alana (personagem de Terror Train) parecem ser sexualmente ativas, assim como outras final girls que despontaram nos anos 70, como Jess Bradford (Olivia Hussey), outra garota sobrevivente do terror canadense, protagonista de Black Christmas (1976).

 
Mas não vá pensando que o cinema canadense, aparentemente mais evoluído, não pisa na bola. No segundo longa da franquia Prom Night, o qual recebeu o nome no Brasil de Vestida Para a Vingança (1987), a personagem de Jamie Lee Curtis é completamente eliminada da festa de formatura, e uma nova rainha do baile é apresentada. Trata-se de Mary Lou Maloney. A jovem é espevitada, consciente de sua sexualidade (têm vários affairs), e debocha da religião, a qual tem um papel importante de manutenção da moral e dos bons costumes na cidade onde ela vive. Pega em flagrante pelo namorado com outro jovem durante o baile de formatura, o jovem traído se enche de ódio e coloca fogo no vestido de Mary Lou quando ela está recebendo a coroa de rainha do baile. A garota acaba falecendo. Anos mais tarde, seu algoz continua a vida, como se nada tivesse acontecido e se torna o diretor da escola onde o crime aconteceu. No baile de formatura, é claro, Mary Lou retorna para ter sua vingança. O que, de fato, é algo merecido, visto que a jovem é a vítima do filme. E aí que entra algo muito sério e que deve ser discutido: a normalização da violência contra a mulher, a misoginia, que basicamente transformaram a garota vítima em um monstro, justamente porque ela não seguia aquilo que a sociedade tinha estabelecido como o papel da mulher. Como ela se negava a seguir o roteiro, foi morta friamente na frente de todos, e seu assassino nunca fora descoberto. Mary Lou, em uma análise fria, era uma personagem empoderada, transgressora e divertida. E foi resumida a um ser "monstruoso" por não estar dentro do padrão feminino da década de 50. E o pior de tudo isso. Ela se transforma em um lembrete do moralismo constante dos anos 80-90: olhem meninas! Veja o que acontece quando você faz sexo antes do casamento!


Outra rainha de formatura “monstruosa” é a menina Carrie. Criada por Stephen King, e levada para o cinema por Brian de Palma em 1976, a jovem é hostilizada pelos alunos de sua escola por causa de sua aparência. A garota é criada pela mãe, uma religiosa fanática e isso explica muito o seu comportamento introvertido. Quando Carrie menstrua pela primeira vez, ela começa a desenvolver poderes telecinéticos, o que parece ser uma metáfora clara de que agora a jovem teria se tornado uma “mulher” e está dotada de poder sexual, algo que era muito temido pela sua mãe.

Carrie, depois de começar a manifestar seus poderes, acaba por ser eleita a rainha do baile em uma brincadeira de extrema maldade. Os colegiais jogam sangue de porco na jovem quando ela está sendo coroada. Eles não poderiam prever o que viria depois. O seu poder telecinético se potencializa e ela acaba matando todos os participantes do baile e destruindo a escola. E no final, ainda elimina sua mãe monstruosa. Em um primeiro momento, a única leitura possível é de que Carrie é uma garota monstruosa, uma bruxa mortal, que se vinga de tudo e de todos. Mas existe outra leitura possível: Carrie representa toda a transgressão dos movimentos feministas dos anos 70. Se antes o papel da mulher era o de ser recatada e do lar, isso acabou! A jovem se empodera e descobre sua própria sexualidade. Derrota a comunidade, e sua hipocrisia, e se livra da mãe religiosa, a qual faz a manutenção da moral e dos bons costumes. Ela não seria um monstro, mas sim uma representação do poder feminino. 


Outro longa que aborda a prom queen monstruosa é The Loved Ones (2009). O longa australiano é um exemplar do ozploitation, o terror ultraviolento da Austrália. Como na primeira década dos anos 2000 o gore invadiu os filmes de terror, graças aos longa-metragens, chamados de torture porn (Jogos Mortais, por exemplo, é uma produção australiana), abriu-se um espaço para que os filmes exploitation voltassem com força na terra dos cangurus. Vamos combinar que o terror feito na Austrália, por causa do tipo de censura, é um show de violência, misturado quase sempre com um jogo psicológico. Um exemplo claro disso é o filme A Fortaleza (Fortress/1985), um clássico do terror, o qual era exibido em algumas sessões de cinema vespertinas de emissoras brasileiras. O filme apresenta um grupo de crianças, as quais são sequestradas por bandidos mascarados. Para fugir dos seus algozes, eles acabam se organizando, junto com a sua professora e matam os sequestradores. No final do “inocente” filme, o coração de um dos assassinos pode ser visto em um vidro, dentro da sala de aula.

O forte do terror australiano, desde sempre, parece ser a exploração dos monstros da vida real. Nunca houve um grande comprometimento com figuras sobrenaturais. É o caso de The Loved Ones. Brent (Xavier Samuel) é um jovem traumatizado. Pouco tempo depois de receber sua habilitação, durante um passeio de carro com seu pai, ele se envolve em um acidente de trânsito que acaba vitimando o progenitor. A vida segue e, no dia do baile de formatura, sua colega Lola o convida para a festa, mas ele gentilmente declina, pois levará a sua namorada. Lola não fica feliz com a situação e, com a ajuda de seu pai, sequestram Brent e fazem um baile de formatura privado. E o evento vira um banho de sangue. Lola e o pai são completamente doentes. Brent está vivendo um pesadelo e descobre que outros jovens que sumiram na cidade estão confinados no porão da casa da família Stone, e foram transformados em uma espécie de zumbis. E esse também vai ser seu destino.

Mulheres em surto, histéricas, é uma representação bem comum no cinema. Quase sempre, quando uma personagem está sendo perseguida por um monstro sobrenatural, qual é a primeira coisa que é questionada sobre o assunto? A sanidade mental delas. Quando ela resolve pedir ajuda, quase em toda a totalidade dos filmes, a mulher é considerada louca. Rosemary (Mia Farrow), por exemplo, em O Bebê de Rosemary, também era considerada histérica por achar que estava gerando o filho do capiroto. E o que aconteceu no final? Em The Loved Ones a temática é novamente explorada, mas aqui Lola realmente é uma menina com problemas mentais, herdados do pai, o qual é totalmente desequilibrado. No mundo deles, o que "Lola quer, Lola consegue". O genitor faz todas as vontades da menina, incluindo sequestrar os jovens por quem ela se apaixona. Como os jovens relutam e não aceitam seu destino, eles são submetidos a todo o tipo de tortura até serem jogados no porão da família. Até a mãe de Lola é submetida ao mesmo procedimento de lobotomia que os “prisioneiros” da família, pois a adolescente invejava o relacionamento que a genitora tinha com o próprio pai. E é bem perceptível que existe uma relação latente amorosa entre pai e filha. A jovem troca de roupas na frente dele e ele demonstra um certo desconforto, ao mesmo tempo que se sente atraído pelo corpo da filha. Durante uma cena de dança, Princess (como Lola é chamada pelo pai), conclui que todos os jovens que ela traz para casa são sapos. E que o seu príncipe, na verdade, é o próprio pai.

O filme é extremamente desconfortável. A rainha do baile é monstruosa, mas ao mesmo tempo, é somente uma garota, usando um vestido cor-de-rosa, que poderia ter sido retirada de um filme do John Hughes. A maldade que emana é quase incompatível com a sua delicadeza. Ela quer ser amada a todo custo e não consegue. Esse é o combustível de sua perversidade. Lola ouve incansavelmente a música Not Pretty Enough da cantora Kacey Chambers, onde ela questiona a razão de não receber amor de quem gosta: não sou bonita o bastante? Eu não faço você rir? Eu não estou tentando o suficiente? Talvez sequestrar e transformar em zumbis aqueles que não a amam tenha sido mais do que suficiente. Mas tudo é extremo no mundo da rainha do baile Lola. Ela faz de tudo para suprir seu vazio. Qualquer coisa por sua visão distorcida de amor.