[Entrevista] O cinema independente de Marcelo Fabani

março 22, 2019




Amigos (as) do blog Final Girl. Apresento para vocês meu mais novo projeto, o Final Chica. Vamos desbravar os domínios do cinema de terror feito na América Latina e no Caribe. Vocês irão encontrar por aqui entrevistas, curiosidades, entre outros aspectos, sobre os filmes de terror produzidos na América do Sul, América Central e México.  

Eu comecei a idealizar o projeto no ano passado, pois eu acredito que, mesmo com a grande proximidade entre os países, existe um abismo cultural muito grande entre as nações quando falamos de cinema de terror. Os brasileiros consomem muita coisa vinda dos Estados Unidos, da Europa, da Ásia e possuem um acesso muito restrito às produções vindas de outros países americanos. E minha intenção, com o Final Chica, é propiciar que os fãs do terror do Brasil possam conhecer um pouco mais sobre essas películas estrangeiras e seus realizadores. Outra ponta do projeto é a seguinte: ter a possibilidade de abrir uma discussão acerca das limitações do gênero terror na América Latina e Caribe.

A primeira "vítima" do projeto é o diretor independente uruguaio Marcelo Fabani. O talentoso cineasta possui em seu currículo vários curta-metragens muito interessantes, os quais participaram de uma série de festivais, como o Rojo Sangre (Argentina), Montevideo Fantástico (Uruguai), Horror Film Fest (Estados Unidos), entre outros. Fabani está há 15 anos se aventurando pelos caminhos do cinema. Conversamos sobre seu trabalho e sobre como é produzir terror no Uruguai. 


 [FG] Marcelo, quando você começou a se interessar por filmes de terror?

Aos 4 anos de idade, em 1969, com "Dark Shadows", que foi transmitido por um canal a cabo. Logo entrei em contato com a grande influência da minha vida: "The Twilight Zone”.

[FG] Quais são as suas maiores influências no cinema de terror?

Alfred Hitchcock, Stanley Kubrick, David Cronenberg e John Carpenter.

[FG] O que você mais gosta nos filmes de terror uruguaios?

A exploração por fora dos trilhos convencionais. Gustavo Hernández explora o psicológico, Facal explora o bizarro, Kloetzer explorou o gore-científico. No seu momento e até a sua última película, Ricardo Islas explorou a reformulação do cinema de terror clássico adaptado a ambientes e idiossincrasias locais com um pulso narrativo que melhorou muitas performances do cinema comercial.
Hoje em dia, pode-se ver em dezenas de curta-metragens nacionais, muitos realizadores que se atrevem a gerar histórias de terror onde se busca criar suspense e inquietar, muito além das fórmulas de sustos, pulos e monstros como pontos altos do filme.  

[FG] Quais são as maiores dificuldades de ser produtor audiovisual independente no Uruguai?

A necessidade de subordinar a paixão à sobrevivência. A maioria dos cineastas que conheço financia suas atividades com os recursos que eles alcançam com seu trabalho "formal". Eu entendo que o financiamento através de canais coletivos externos nem sempre gera a empatia "financeira" necessária para fazer um filme.

[FG] “Omnibus 48” é um filme sobre crime. E, antes disso, você fez o curta Emigrante. Ambos são filmes com elementos de cinema mais clássico. Por que você decidiu fazer a transição para filmes de terror?

Na verdade, eles obedecem a dois períodos bastante fortes em minha vida. Escrevi Omnibus 48 no ano 2000 e foi revisado por meu pai, Gustavo Fabani, quando ele já estava em estado terminal. Infelizmente ele morreu sem vê-lo.
Emigrante é literalmente uma catarse de como eu me senti em um momento em que emigrei com minha esposa para o exterior. Em si, ambos os filmes sugerem uma alteração da realidade tangível.
Mais do que tudo, sou atraído pela alteração da realidade cotidiana ou tangível. E isso foi para mim, continuar com filmes de terror.

[FG] “Yo y Nadie Mas” é genial. É uma mistura de comédia, terror. A ambientação é muito interessante e deixa o plot twist ainda mais surpreendente. Os efeitos especiais são incríveis. Me diverti muito assistindo. Como foi a recepção do curta? Como foi a recepção no Uruguai?

Eu penso que se você olhar tanto para o monstro, você pode se tornar ele. Quis mostrar como o medo, ainda que seja tragicamente real e com consequências muito prejudiciais para alguém, pode alterá-lo até desfigurá-lo, a ponto de não se reconhecer como ser humano.

Estreou no Festival de cinema de Piriápolis e foi bem recebido e celebrado, pois gerou uma espécie de clássico de futebol entre quem justificava as atitudes do protagonista e os que o rejeitavam.

[FG] Seus curtas, ainda que algum deles sejam realmente curtos, proporcionam muita coisa para a imaginação, como o You Are What You Eat. Como esse curta surgiu para você?

Aceitei o desafio de um jovem realizador canadense de contar uma história de terror de 15 segundos. Sempre gostei da ideia de levar o espectador por um caminho bem sinalizado para alterá-lo no final. E está certo o que você diz. Trato de sugerir muito porque creio que o espectador disfruta mais quando completa de sua maneira os interstícios que eu deixo entre dois momentos-chave.
  
[FG] “After Last Day” é um filme que tem um pouco de gore, têm elementos de terror e, ao mesmo tempo, tem uma mensagem crítica muito forte. A mesma coisa notei no “Yo y nadie mas”. Você tem intenção de refletir sobre suas inquietações sociais em seus filmes?
Totalmente. Creio fortemente que o terror é um veículo muito adequado para transmitir opinião. Omnibus 48 fala sobre marginalidade criminal, o abandono, o desamor e o egoísmo. Yo y nadie mas, agregando ao que expressei, é o retrato de um homem só, no final de sua vida, que foi quebrado definitivamente por uma tragédia ocasionada por um estado de insegurança incontrolável.
After Last Day fala sobre se vivemos a vida que queríamos ou nos deixamos desenhar pelos outros. E fala sobre a recorrente ingratidão, de que nossas frustrações são sempre pagas por aqueles que mais nos amam.
Há outro curta, "Desniveles", filmado no Teatro Solís, que fala sobre exclusão, discriminação e consequentemente a destruição de todas as pontes de contato social.

[FG] Você explora em seus curtas sobre sociopatia, vampirismo, canibalismo. O que você falta na sua filmografia?

A questão extraterrestre, o paranormal e algo de zumbis.

[FG] Na sua opinião, por que o cinema de terror não se desenvolve tanto na América Latina?

Há um problema geral, é que os filmes de terror estão esgotados em fórmulas que são muito repetidas e os novos cineastas não alcançam, em geral, o acesso à uma distribuição que lhes permita mostrar seu trabalho.
No entanto, há um grande esforço de festivais de terror como Montevideo Fantástico, no Uruguai e similares em vários países da América Latina, que abriram enormes espaços para a divulgação deste gênero.

[FG] O que você acredita que falta para que o cinema de terror tenha mais visibilidade no Uruguai?

Sem dúvida, em primeiro lugar, um apoio mais firme aos festivais do gênero para que administrem mais salas e telas de divulgação.
Em segundo lugar, é necessário mais apoio das salas, que concedam uma taxa de exibição sempre desde que a produção possa fornecer material suficiente.

[FG] Qual é o seu filme de terror uruguaio favorito?

“Plenilunio”, do Ricardo Islas. Uma pequena joia do suspense e do gore. Bem escrita, bem narrada e um retrato de como se fazia cinema nos anos 90 no Uruguai.

[FG] Quais são seus projetos futuros. Pode nos adiantar algo?

Estou pré-produzindo um curta-metragem sobre os efeitos da contaminação ambiental, financeira e mental da sociedade através de um protagonista que vive essas consequências em um mundo destruído no final do século XXI. O personagem transita do normal para a sua transformação final que não é apenas física, mas sentimental, mas mantém uma luz de esperança para a humanidade. Parafraseando o subtítulo de Frankenstein de Mary Shelley, O moderno Prometheus, nosso protagonista, pertencente de um país eternamente de Terceiro Mundo, chama-se El Modesto Prometheus. Modesto, para os íntimos. E é também o portador de uma luz.


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