[Filme como uma garota] Conheça a diretora panamenha Sol Moreno



A produção cinematográfica de terror ainda está engatinhando em muitos países da América Latina. Na Argentina, por exemplo, a confecção de filmes de terror começou na década de 40. Mas, em outros países, é algo muito recente. É o caso do Panamá. O primeiro longa de terror da história do país está sendo produzido desde o ano passado pelos diretores Sol Moreno e Jota Najéra. Trata-se de Diablo Rojo PYT. A história fala sobre um motorista de um ônibus Diablo Rojo*, o qual se torna vítima de uma bruxa e acaba se perdendo na floresta. Policiais se envolvem na busca e um pesadelo se instaura na escuridão da mata.
Sol Moreno conversou comigo sobre o filme e o resultado você confere agora na segunda parte do Final Chica.
 
[FG] Como você descreve o filme Diablo Rojo PYT? É a primeira película de terror do Panamá?
 
Sim, bom. Diablo Rojo é o primeiro filme de terror panamenho. O que queremos dizer com isso é que ele fala um pouco sobre nossas lendas (la tulivieja, os índios conejo, entre outros). É uma história com drama e monstros e mistura a lenda viva da cidade, que são os ônibus Diablo Rojos, com o imaginário panamenho e uma boa dose de bruxaria.
 
[FG] Como foi a recepção do filme no Panamá? 
 
A película ainda não foi terminada. Estamos em pós-produção, ainda que não completamente, pois estamos gravando uns efeitos práticos que ficaram pendentes. Mas acreditamos que está despertando expectativas, já que nunca foi feito nada parecido previamente.


[FG] Por que você acha que o gênero de terror não tem tanto espaço na América Latina?
 
Tenho várias teorias a respeito. Pode ser a religião, muitas pessoas acham que estão chamando ao mal. Parece-me também que existe uma tendência para o social, o aspecto educacional que em muitas ocasiões é o oposto do que o cinema de terror parece à primeira vista. Também é mais complicado e não tão premiado como o cinema independente, já que muitas vezes acredita-se que é sempre mainstream. Na realidade, não saberia dizer, mas fico triste que o cinema de terror não tenha tanto espaço na América Latina.


[FG] Você viveu muitos anos na Espanha e produziu lá curta-metragens de terror. Por que decidiu gravar seu filme no Panamá?


Sim. Vivi 16 anos em Barcelona, onde participei de muitos curta-metragens e realizei alguns. Eu sou panamenha e uma das coisas que me influenciaram e ajudaram a formar parte da minha identidade foram os contos de medo que minha tia-avó me contava nas noites. Passava muito medo, mas ao mesmo tempo eu gostava e creio que foi uma das coisas que me influenciou a desenvolver meu gosto pelo “creepy”. Minha tia me contava muitas histórias de bruxas e tudo sobre a “la tulivieja”, essa versão da mulher que chora perto dos rios por seu filho afogado e creio que eu transmiti para o Jota Nájera, meu marido e roteirista. Isso fez que ele escrevesse o roteiro da película Diablo Rojo e obviamente tínhamos que gravar no Panamá e assim fizemos.


[FG] Você participou de outro longa-metragem de terror na Espanha, Megamuerte. Qual é a diferença de filmar na Espanha e no Panamá?

 
Sim. Eu produzi e fiz o desenho de produção de Megamuerte. Há muitas diferenças entre um lugar e o outro, ao menos para mim. Megamuerte é um filme de micro-orçamento, feito com o apoio de um monte de amigos e fãs de horror e, apesar das complicações que sempre surgem, foi muito divertido e uma ótima experiência. Com Diablo Rojo ganhamos o primeiro prêmio do fundo de cinema do Panamá. Tínhamos um orçamento que nunca havíamos manipulado e isso representava que nos facilitaria as coisas, mas o problema foi que encontrarmos pouca equipe relacionada com o gênero ou que gostasse do gênero. Evidentemente que todo o fã do gênero que conhecíamos fez parte da produção de uma maneira ou outra. Creio que ter pouca gente na equipe que não falava com as mesmas referências fez as coisas serem diferentes, mas não ruim. Tivemos grandes profissionais na equipe e isso vai se notar. Também aprendemos um montão.


[FG] Você possui um festival de terror no Panamá. Poderia falar um pouco sobre ele e como é a produção cinematográfica de terror no país?
 
Sim. Sou diretora e programadora do Festival de Cinema de Terror do Panamá. Este ano celebraremos em agosto a quarta edição. A produção cinematográfica no Panamá, em geral, é bastante nova e, sobretudo, com as produções de terror. Mas cada ano recebemos mais propostas e muita gente com vontade de fazer parte disso e isso é genial, já que a intenção é criar uma comunidade de artistas e fãs de terror.


[FG] Há poucas mulheres que fazem filmes de terror. Hoje em dia existe um número maior do que no passado. Por que você acredita que as mulheres não dirigem tantos filmes de terror?
 
Originalmente as mulheres estavam vetadas em muitos aspectos e tinham que tem muito ímpeto para abrir uma brecha. Mas creio que também há algo em nosso inconsciente, que foi metido durante nossa existência, que temos que ser delicadas e bonitas e o terror é todo o contrário disso. E me parece que, em parte, é por que elas não gostam ou se atrevem, mas tudo isso passará. Cada vez há mais mulheres no cinema de terror. Há muitas artistas de efeitos especiais que estão ganhando a vida fazendo vísceras e mutações. E isso é genial e cada vez saem mais películas de terror realizadas por mulheres. E eu gosto, elas tendem a ser diferentes, não sei se temos outra sensibilidade ou nossa contínua relação com o sangue e a dor fazem que façamos coisas distintas.


[FG] O que te inspira no terror? Qual é o seu subgênero favorito?
 
O terror para mim sempre foi romper com as regras, a vida pacífica e cotidiana é interrompida, é uma sacudida e isso me emociona. Sou inspirada pelas atmosferas pesadas e pela escuridão. Eu gosto de terror paranormais, sobretudo com histórias de bruxaria, seitas e satanismo. Embora não me desagrade um bom filme de monstros e vampiros.


[FG] Têm planos de dirigir outros projetos de terror no Panamá?
 
Atualmente não tenho planos de nenhum outro longa-metragem, mas não descarto em um futuro próximo. Quando terminar Diablo Rojo gostaria de fazer alguns curta-metragens que tenho em mente e experimentar um pouquinho com o teatro.



*Para quem não conhece a história do Panamá ou nunca visitou o país, os Diablo Rojos fazem parte da cultura local. São ônibus escolares estadunidenses, os quais, quando são aposentados, são comprados por panamenhos e recebem uma pintura forte e vários desenhos. São um dos mais importantes meios de transporte do país e estão fadados ao desaparecimento, pois eles estão sendo substituídos por ônibus mais seguros. Recebem o nome de diabo vermelho, pois os motoristas possuem métodos pouco ortodoxos de dirigir. É muito bacana que a Sol Moreno e o Jota Najéra tenham feito um filme sobre isso. É uma justa homenagem para este patrimônio cultural panamenho.