O terror uruguaio de Miguel Torena

março 24, 2019



No terceiro capítulo de nossa aventura pelo terror latino-americano e caribenho, voltamos para terras uruguaias. O entrevistado de hoje é o cineasta Miguel Torena, o qual faz cinema independente de terror. Em seu currículo estão os longa-metragens “La Sospecha” (2018), “La lista de la Muerte” (2015) e curta-metragens, como “Cazadora de Almas” (2012). Conversamos sobre suas produções e a realidade do cinema de terror uruguaio.

[FG] Como você começou a se interessar por filmes de terror?

Desde muito pequeno, graças a minha avó que incutiu em mim a sétima arte (o cinema) e também graças ao meu tio, que foi dono por um tempo em Montevidéu de uma locadora de vídeos. Lá, sempre que tinham que realizar um inventário do estado dos videocassetes, eu pegava escondido várias películas para ver sozinho. Estou te falando que naquela época, no ano de 1992, eu tinha 7 anos e conheci filmes como A Hora do Pesadelo (Freddy Krueger) e Brinquedo Assassino (Chucky) e a partir dali começou o meu amor pelo gênero, terror/suspense com filmes de Hitchcock, entre outros.


[FG] O que você mais gosta no cinema terror Uruguai?

Acredite ou não, eu gosto da iluminação e da sua fotografia (em filmes uruguaios), que se torna artística ao extremo, ou algumas sequências câmera-na-mão. Recentemente o Festa Nibiru do diretor Manuel Facal foi lançada, mas eu não tive a honra de ir ver o filme no cinema, mas posso dizer que tem um trabalho brutal de iluminação e fotografia, que se destaca acima de tudo.


[FG] O cinema de terror latino-americano é ainda bastante tímido. Por que você acha que isso acontece?


Eu acredito pessoalmente que o cinema de terror não tem aceitação em certos setores. Seguem excluindo o gênero, o consideram essa ovelha negra que tem que deixar de lado e não dar-lhe a visibilidade necessária para que cresça. O cinema da América Latina foi empurrado a ser irremediavelmente de protesto e biográfico-documental e a pouca distribuição e em alguns casos nula, fazem que esse gênero seja no momento o bicho raro, o qual ninguém quer acariciar por medo que morda.


[FG] Quais foram as principais dificuldades que você enfrentou para fazer seus filmes de terror no Uruguai?



Muitas, entre elas, o orçamento que sai (sempre) do meu bolso. Não tenho ajuda financeira de nenhuma produtora ou agente externo. O que trabalho em 10 horas sai para pagar contas e manter meus projetos independentes. Também, outra dificuldade, são as locações. Por ser independente, são poucos ou nulos, os lugares que conseguimos e as permissões que te exigem no Uruguai te tiram por momentos a vontade de seguir com um projeto. Há pouca ajuda para os realizadores independentes. Sem patrocínio você não existe.

 [FG] Sobre teu trabalho. Como você se define como diretor?


Não sou bom em me auto definir. Posso repetir o que meus companheiros que me ajudam a filmar ou meus atores dizem. Todos concordam que sou acessível no momento de filmar. No pessoal, sempre defendo que as atuações sejam o mais realista possível. Escrevo o roteiro, preparo o storyboard para o cinegrafista que me ajuda (Daniel Mesa, um veterano cinegrafista da televisão aqui do Uruguai) tenha em mente os planos a realizar. Entrego o roteiro diário para os atores e nunca há ensaio prévio. No momento de atuar há uma prática, uma explicação da situação e dos pontos de ângulo para as câmeras, um reconhecimento prévio da locação e o que atores dispõem. Usualmente peço aos atores que realizem suas interpretações de maneira natural e se tem que recorrer à improvisação, que realizem sem medo sempre e que repitam os pontos entre os diálogos para logo ter a possibilidade, no momento da montagem, que tudo tenha uma continuidade de acordo. Levo o rito do cine francês clássico, o cinema de ensaio. Me aconchego no grande François Truffaut e no grande Alfred Hitchcock. Esses dois são meus pilares no gênero cinematográfico. Logo há outros diretores. Com eles aprendi as formas e técnicas para filmar.


[FG] Como foi o seu primeiro trabalho como diretor?
 


“El Visitante” foi o meu primeiro curta-metragem. O filmei em um dia e o editei em uma semana. Tratava sobre um alien, como o da película clássica do Ridley Scott de 1979, que chegava à terra e começava a atacar um bairro de Montevidéu. Caia justamente em uma casa e queria atacar o seu dono. O curta estreou em um evento, o Montevideo Comics, do ano de 2008 e foi um sucesso. Ao passar do tempo me dá vergonha de me ver atuar com tão poucos recursos que eu contava nessa época para filmar. Não sabia maquiagem de efeitos, coisa que aprendi com o passar dos anos. Tinha uma câmera de muita baixa qualidade e os sistemas de iluminação eram nulos, iguais a edição. Mas bem, o tempo passa e você vai se aperfeiçoando. Ou melhor dizendo, evoluindo.


[FG] Cazadora de Almas é um curta muito interessante e se baseia em uma história que você escreveu. É uma história fantasmagórica. Como foi o processo de confecção da película?


Cazadora de Almas foi um experimento que comecei a escrever pelo final do ano de 2011. Sempre quis escrever uma história curta, de um só personagem, o qual não sabe se está vivendo a realidade ou um sonho estranho. O projeto começou suas filmagens no ano de 2012. Realizei maquetes para os planos em miniatura que no final da edição definitiva não os inclui e isso me encheu de tristeza pois, no momento de realizar a montagem, tens que decidir para dar um ritmo para a edição, o que fica e o que vai embora. Também tive que aprender a realizar maquiagem de efeitos especiais, a MAKEUP, tomando moldes em alginato dental, látex, entre outras técnicas.Tive muitos contratempos, tive que trocar os atores, modificar a trama, choveu um mês inteiro e isso atrasou a filmagem do final e os efeitos especiais na tela verde, a chroma key. Problemas de informática me obrigaram a adiar a estreia e a perda do material filmado. Foi uma travessia agonizante até a estreia. No final, eu gostei muito por causa dos planos e efeitos práticos especiais, mas seguem criticando o áudio. Tenho que que ser honesto. Nunca me conformei com o produto final e sempre fiquei com a espinha de filmar um plano, mas bem, se tivesse uma máquina do tempo o faria sem dúvida.


[FG] O que te influenciou a escrever a história?
Ainda que pareça mentira, “Os Outros” e um episódio do programa “Alfred Hitchcock apresenta” me influenciaram para escrever Cazadora de Almas. Essa aura de mistério que no final te deixa perguntas. Sempre gostei de criar ou tentar criar no espectador a melhor sensação.


[FG] “La Sospecha” é sua película mais recente. Poderia falar um pouco como foi fazê-la?
La Sospecha é um thriller de suspense policial, ao melhor estilo clássico, com muitos elementos, por momentos, do cinema de terror. Sem gore, mas algum ou outro momento é grotesco. A realização começou, com outro nome para a história, no fim do ano de 2016, começo de 2017 e conflitou com uma das partes que me ajudava na filmagem. Decidi então trocar por completo a trama da história, o nome e por sorte esse câmbio foi mais benéfico. No começo de 2018, comecei a filmagem ininterrupta do filme, que conta com locações, assistência de uma produtora associada (CINEMA STUDIO ATLÁNTIDA), atores profissionais, como Jorge Sugo, Jimena Ramos, Jorge Da Costa, Jorge Gonzalez, Andres Vinãs, entre outros. O projeto foi realizado, por sorte, em tempo e forma, sem contratempos e com uma repercussão que jamais havia esperado. Tive a ajuda na Venezuela de um amigo locutor que trabalhou para a Columbia/Tristar, o qual atua e empresta sua voz ao projeto. Logo após finalizada a filmagem, na etapa de pós-produção, realizei os efeitos especiais, modelos a escala de um poço de elevador, filmagem a 120 e 240 fps, makeup e efeitos de maquiagem. Nesse momento estou na etapa final de edição, esperando estrear o longa-metragem em breve.


[FG] O cinema de terror está engatinhando em muitos países da América Latina. Por que você acha que isso acontece?



Creio que o espectador latino tem fome de cinema de gênero. É algo que não vai mudar e vai seguir crescendo pouco a pouco. Além de serem filmes de terror que não são apenas os típicos filmes de gênero americanos, mas também filmes que lidam com lendas locais e isso é algo que Hollywood não pode contar.


[FG] O que falta para que mais produções cinematográficas sejam feitas no Uruguai?


Apoio aos realizadores independentes que não estão aderidos a corporações e grupos econômicos. Hoje, se você não faz parte desses grupos, o realizador amador não existe. Tanto para o MEC (Ministério de Educação e Cultura), como para companhias exibidoras de cinema. Isso está liquidando cineastas independentes e forçando o crescimento do cinema local. Em algum momento o passo será distorcido e as coisas serão ajustadas para níveis iguais para todos e projetos independentes ou produções cinematográficas serão considerados.

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