Final Chica: O cinema de terror paraguaio







Complementando as entrevistas que estou desenvolvendo com os diretores, resolvi falar um pouco sobre os longa-metragens pioneiros do gênero na América Latina. O primeiro artigo é sobre o Paraguai, o qual demorou bastante tempo para ter sua primeira película. Apenas alguns países da América do Sul tiveram produções antes dos anos 90 (Argentina, Equador, Brasil, Colômbia, Peru e Uruguai). Nos demais países, os filmes são muito recentes. Existem muitas explicações para isso: problemas para obter financiamento, o excesso de violência cotidiana de nossos países e a própria "marginalização" do gênero. As pessoas tendem a ver com desconfiança projetos fantásticos nacionais, apesar de consumirem muito cinema estrangeiro, principalmente o proveniente dos Estados Unidos. Muita gente, inclusive, questiona as motivações dessa relutância em relação ao que é local e a alta apreciação do que vem de Hollywood. Eu aponto dois motivos: a qualidade dos longas e também o fato de que o cinema hollywoodiano auxilia no processo de catarse do espectador latino-americano, pois os eventos que eles mostram, os monstros, os cenários (mesmo que eles façam parte do nosso imaginário por termos visto muitos desses aspectos nos mais diferentes filmes, dos mais variados gêneros), é possível ter um distanciamento e isso auxilia o espectador a lidar com sua realidade violenta. O diretor uruguaio Ricardo Islas, em entrevista ao blog, disse algo interessante sobre as filmografias de terror tardias e que complementa isso. Segundo ele, os países da América Latina passaram por ditaduras muito sangrentas. Então demorou bastante tempo para que esse tipo de gênero fosse apreciado. Havia tanta violência na vida real que não existia a necessidade de fazer filmes sobre isso. 
E isso provavelmente aconteceu no Paraguai. A ditadura militar durou muitos anos. Entre 1954 e 1989, o país foi comandado pelo general Alfredo Stroessner. O ditador orquestrou um dos regimes mais sangrentos da América Latina. A violência empregada em suas torturas beirava a barbárie. Pareciam ter sido extraídas do roteiro de algum filme torture porn da década de 2000 ou de um manual de torturadores medievais. Era o verdadeiro horror do cotidiano, palpável. Creio que nenhum filme de terror conseguiria competir com a tamanha brutalidade empregada pelo general contra os "inimigos" do governo, no período que controlou o Paraguai.



Todo o cinema paraguaio foi, de alguma maneira, afetado pela ditadura. Pouquíssimos filmes foram feitos durante o período. O primeiro longa-metragem de terror do país só fora lançado em 2016. Trata-se de Gritos del Monday. O filme, dirigido por Héctor Rodríguez, fala sobre um grupo de jovens que vão até a reserva ecológica de Monday, um ponto turístico muito conhecido no Paraguai. Eles resolvem acampar no lugar e, no meio da noite, acontece algo sinistro que acaba abalando o grupo. É uma história que trabalha com elementos sobrenaturais e tem uma premissa interessante. Eles exploram um subgênero do terror clássico, adaptando-o para o contexto local (locações e elementos narrativos próprios do Paraguai), o que é bastante louvável.

Confira o trailer:





Nesse ano, uma nova película de terror chegou aos cinemas paraguaios. Oscuridad é uma antologia de nove curtas. O diretor Carlos Tarabal organiza há algum tempo um festival de cinema, chamado Sombras-Prócer Latino. Os curtas ganhadores do evento fazem parte do longa-metragem.


Tarabal é um velho conhecido dos paraguaios. Foi o criador do seriado de maior sucesso do país, Sombras de la Noche, exibido entre 1993 e 1997. O programa abordava histórias paraguaias. O mais interessante de tudo é que todas os média-metragens eram feitos na língua guarani, o idioma que é falado por 90% da população paraguaia, mas que fora extremamente marginalizado durante a ditadura de Stroessner. A série de tevê foi uma revolução. Se antes apenas 7 filmes haviam sido feitos no Paraguai, produções fantásticas invadiam a televisão toda a semana, abordando as lendas e os personagens tão presentes na cultura indígena e que acabaram se enraizando na sociedade paraguaia.