O lado fantástico de Issa López: Uma conversa sobre o filme Os Tigres Não Têm Medo





Issa López é uma das artistas mais completas do México. É diretora de cinema, roteirista e uma escritora premiada. Por muito tempo, seu talento era destinado para a literatura, televisão e para as comédias. Mas ela quis dar um novo passo. Lançou seu primeiro longa de cinema fantástico em 2017, chamado Os Tigres Não Têm Medo (Vuelven). O filme é uma mistura delicada de fantasia e realidade e fala sobre os cartéis de drogas do México e de como crianças tentam sobreviver em meio à essa guerra sangrenta. A película foi aclamada nacionalmente e internacionalmente. Apesar de ser um conto de fadas obscuro, é definitivamente um dos filmes mais bonitos que tive a oportunidade de assistir. Confira a entrevista que a diretora concedeu ao projeto Final Chica.

[FG] Você trabalhou em novelas, dirigiu longa-metragens de comédia. Como aconteceu essa transição para o cinema fantástico?

O cinema de gênero tem sido uma grande paixão da minha vida e é a razão de que me dediquei ao cinema. Cresci rodeada de películas de Spielberg nos anos 80, as adaptações dos livros de Stephen King. Meu pai nos empurrava para consumir cinema de arte: Tarkovsky, Bergman, Kurosawa, Buñuel. Mas a idade pedia aos gritos por cinema comercial da época. A combinação é o que resultou em Os Tigres Não Têm Medo. É uma saída do armário para uma aficionada por esses cinemas como eu sou. 

[FG] Os Tigres... é um filme que aborda as questões de violência tão presentes nos países da América Latina. A fantasia é uma catarse para as crianças que estão vivendo uma situação muito dirá. Muita gente acredita que o terror também seja uma maneira de lidar com nossos medos. É mais fácil abordar assuntos dessa seriedade com elementos fantásticos?


Mais do que fácil ou difícil, era inevitável. A violência em que vivemos agora beira o horror. A linha de sangue que aparece no filme já está nos seguindo. Eu simplesmente traduzi em imagens uma realidade impossível de negar.

[FG] Os Tigres... é um filme belíssimo. Tem uma fotografia e uma direção de arte impressionante. Quais foram suas principais influências na construção da película?


Antes de mais nada, dar crédito a Juan José Saravia, fotógrafo, e Ana Solares, designer de produção. Sua influência foi absolutamente vital. Além disso, o filme é uma coleção infinita de referências visuais que eu estava reunindo desde a concepção da idéia. Há algo sobre 12 Macacos, Fanny e Alexander, As Tartarugas Podem Voar, Cidade de Deus, O Labirinto do Fauno, Um Profeta, Conte Comigo. É uma combinação infinita de muitos filmes que me definem como espectadora.

[FG] Como foi a recepção de Os Tigres... no México?

Os Tigres... estreou contra Coco, o filme de maior sucesso nas bilheterias mexicanas de todos os tempos. Não foi fácil. Eles removeram telas e sessões para vender mais doces. No entanto, as salas onde sobreviveu estavam cheias. O boca a boca foi tremendo. E a resposta foi esmagadora. Tornou-se um filme amado por um grupo de cinéfilos, pelo que sou muito agradecida. Eu acho que a linguagem, o humor e a tragédia dos personagens são entendidos, naturalmente, muito melhor por um público mexicano.

[FG] Há poucas diretoras dedicando-se ao gênero fantástico. Por que você acha que isso acontece?

Cada gênero foi uma conquista. Mas há avanços importantes. Muitas vezes, o mais interessante no cinema de gênero, hoje, são mulheres. Os filmes de ação vão continuar, os de guerra. Se aproxima o dia em que o gênero deixará de ser importante em todos os âmbitos. Não só no cinematográfico. Quero acreditar!

[FG] O cinema fantástico, em geral, é um universo muito masculino. E você pode ver em seu filme, como em outras obras de outros cineastas, uma sensibilidade muito grande para resolver os problemas, muito diferente da abordagem adotada pelos homens. Que contribuição você acha que as mulheres dão ao gênero?

No início, o visual feminino é diferente por natureza. Como não o vimos tantas vezes no gênero, traz um frescor às alegorias cansadas, o que já era muito necessário. Não há novas histórias, mas há novas maneiras de contá-las ... e acho que é isso que as cineastas trazem para a mesa.