O cinema de terror em Porto Rico

junho 03, 2019





Englobar o cinema de terror porto-riquenho na pesquisa sobre cinema latino-americano é algo complexo, pois a situação da ilha é complicada. Porto Rico é uma antiga colônia espanhola, conquistada pelos Estados Unidos. Mas, apesar disso, o território é um estado não-incorporado. Apesar do vínculo estadunidense, é um lugar que transborda latinidade e tem uma independência muito grande no sentido linguístico e cultural. Então, por essa razão, resolvi abordá-lo no projeto Final Chica. 
 
Os primeiros registros do cinema em Porto Rico se entrelaçam com a invasão americana, ocorrida em 1898. Naquele momento, o território fazia parte da Espanha e, depois de fervorosas disputas, os espanhóis acabaram cedendo a ilha para os norte-americanos. Durante o conflito, era normal que os soldados levassem câmeras cinematográficas para registrar o cotidiano do front de batalha. Por essa razão, o começo do cinema porto-riquenho deu-se no campo do documental. Um drama em Puerto Rico foi o primeiro longa-metragem do país. Dirigido por Rafael Colorado D'Assoy, foi lançado em 1912. A primeira película ficcional, Por la hembra y el gallo, só viria a ser desenvolvida em 1916. 

O cinema de terror, por sua vez, só apareceria na ilha em 1997, com o longa-metragem The Face at the Window, dirigido pelo cineasta porto-riquenho Radamés Sánchez. O filme conta a história de uma escritora, a qual está escrevendo seu primeiro livro e começa a ser atormentada por segredos familiares e, literalmente, por fantasmas.  


Radamés voltaria flertar com o terror, mas de forma cômica, em seu cultuado segundo longa-metragem, Celestino y el Vampiro (2003), uma comédia de humor negro.  A película conta a história de Celestino, um homem divorciado na casa dos quarenta anos. Ele decide voltar ao jogo do romance e vai para San Juan para tentar a sorte. Ele não obtém muito sucesso no amor, mas começa uma amizade com seu estranho vizinho, um europeu que conquista muitas mulheres. Com o tempo, um caçador de vampiros chega em Porto Rico e alerta Celestino sobre as reais intenções de seu vizinho e ele então descobre que seu confidente é, na verdade, um sanguessuga, o qual tem um modus operandi um tanto peculiar: ao invés de morder suas vítimas no pescoço, ele prefere dar suas dentadas em suas nádegas. O longa-metragem é cultuadíssimo em Porto Rico. 


Radamés Sànchez, hoje radicado na Espanha, é um dos diretores mais celebrados da cena independente da ilha. Começou sua carreira como projecionista de cinema. Trabalhou vários anos como câmera de televisão e cinema, recebendo vários prêmios na área. Além de The Face at the Window e Celestino y el Vampiro, o cineasta também viria a dirigir o longa-metragem El Detective Cojines (2011), fechando o que os fãs chamam de “Trilogia Sanjuanera”. Eu conversei brevemente com o diretor (atualmente ele enfrenta um problema de saúde). Ele destacou suas influências na composição dos seus dois primeiros filmes.
 
Celestino y el vampiro foi filmado em filme (super 16mm) que é muito mais caro que o digital. E o primeiro (The Face of the Window) também em filme, mas em 35mm, o  que dá mais qualidade de imagem. O terceiro também foi em 35mm. Havia apenas três pessoas na tripulação: um cinegrafista, um ajudante e eu como roteirista e diretor. Eu já sabia que iam gostar de Celestino, baseado em algumas pequenas exilbições que eu fiz e hoje ainda é fielmente seguido por uma minoria. Minhas influências foram Woody Allen (seus primeiros cinco filmes), Mel Brooks, revista Mad Magazine ou outros comediantes de Nova York. Para a primeira (The Face at the Window), as influências foram obras literárias de terror do século XIX, xomo The Monkey’s Paw, The Turn of the Screw, Casting the runes e outros contos de medo. No cinema, as influências foram os filmes do diretor italiano Mario Bava e do inglês Terence Fisher”. 


O pioneirismo de Radamés Sánchez abriu as portas para uma grande diversidade de produções do gênero, as quais foram reunidas pela pesquisadora da Universidade Rollins College, Rosana Díaz-Zambrana em um artigo do livro Horrorfílmico. Na publicação, a professora aborda as comédias de terror, como Celestino y el vampiro e também a duologia Cannabis Canibal e Cannibal Canibal II: Exodus, criada pelo diretor independente Franco Gonzalez. Os dois longa-metragens foram lançados respectivamente em 2008 e 2009. Segundo Zambrana, as películas foram feitas da forma bastante amadora. As imagens foram captadas com uma câmera caseira. E mesmo com as limitações técnicas, um público cativo se formou em torno dos filmes.  


“ E mais, sem ter sido exibido em cinemas comerciais, nem estar disponível no formato DVD para a venda, estas modestas iniciativas — promovidas em grande parte do boca a boca e através das redes cibernéticas — se situam como propostas “diferentes” que, justamente por suas imperfeições e rusticidade, se convertem em material de culto para fãs comprometidos e seguidores com afinco de sua trajetória imprevista”. (Zambrana, 2012, p. 2010)


Apesar dos filmes de Radamés Sanchez parecerem ser mais profissionais, o cinema de guerrilha sempre imperou em Porto Rico. O que, de fato, não é algo negativo, pois essas produções amadoras são importantes para a manutenção do gênero e abriram as portas para o estabelecimento do terror na ilha. Inclusive, desde 2006, Puerto Rico possui seu próprio festival de cinema fantástico, chamado Lusca Fantastic Film Festival. O evento, criado na cidade de Guaynabo, é uma importante janela para produções independentes porto-riquenhos.


ZAMBRANA, Rosana Díaz. zombis y chupanalgas em la Isla del espanto: la comedia de Horror em el cine de culto puertorriqueño. In:_____ e Tomé, Patricia. Horrorfílmico. 1. ed. San Juan/ San Domingo: Isla Negra Editores, 2012. cap. 3, p. 2008-2025.

 


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