Mandy e Revenge: A desconstrução do filme de vingança no cinema de terror





Mandy (2018) e Revenge (2017), dirigidos respectivamente por Panos Cosmatos e Coralie Fargeat, são dois exemplos muito importantes para compreendermos as imensuráveis possibilidades de desconstrução de narrativas cinematográficas mais clássicas do cinema de terror.

Mandy, por sua vez, é um slasher indie com pitadas de terror cósmico, banhado por uma estética retrô multicolorida. Está intrinsicamente vinculado ao universo do rock e as luzes de neon dos anos oitenta. A jornada visual proposta pelo diretor se divide entre tons lavados e tonalidades intensas de rosa e vermelho, que fornecem a película um tom onírico e experimental. É o modo Panos Cosmatos de filmar. O cineasta inaugurou esse estilo “extravagante” de edição com Beyond The Black Rainbow. Neste filme de 2010, o diretor “brinca” com sobreposições, imagens distorcidas, cores improváveis, vaporwave e synthpop. Uma combinação que beira o absurdo, mas que faz todo o sentido no mundo desse artista canadense. 




Contando com essa ambientação surrealista, somos apresentados ao casal do filme. Red (Nicolas Cage), é um lenhador. Ele é um homem rústico e está claramente entediado com a rotina. Inclusive, ele faz menção que deseja se mudar do lugar onde vive.  Mandy (Andrea Riseborough) é uma jovem artista que, quando não está trabalhando em um pequeno mercado, está criando arte ou devorando livros. É um par improvável, mas que funciona no contexto do filme. E o ritmo inicial da narrativa acompanha esse cotidiano lânguido da dupla. 


 
Tudo muda quando Jeremiah Sand (Linus Roache), um líder de um culto religioso, vê Mandy caminhando na estrada e decide que ela deve fazer parte de sua seita. Inclusive o tom do filme é alterado nesse momento, ganhando um ar alucinógeno. Mais tarde, com a ajuda de motoqueiros interplanetários, a personagem é capturada e apresentada para Jeremiah, logo após passar por um pequeno rito com drogas. O líder, por si só, é um predador sexual e vende a ideia de ser escolhido por Deus. Ele aparece desnudo na frente de Mandy e de seus seguidores e ela, ao invés de adorá-lo, ri de sua nudez, ofendendo sua masculinidade extremamente frágil. Por causa dessa humilhação pública, ela deve morrer.  A partir desse momento, Panos muda a narrativa e começa a oferecer pistas de que está prestes a transitar em um terreno mais familiar ao espectador. Começam a aparecer elementos que remetem aos filmes da franquia Sexta-Feira 13, por exemplo. Mandy e Red vivem em uma casa, próxima de um lugar chamado Crystal Lake. Mandy encontra seu fim, sendo queimada viva dentro de um saco de dormir, modus operandi do assassino criado por Sean S. Cunningham, Jason Voorhees. Inclusive, em entrevista para a GQ Magazine, Nicolas Cage afirmou que, quando o personagem de Red se transforma em uma máquina de matar, após consumir uma espécie de suco alucinógeno, Cosmatos tinha em mente que o protagonista se tornasse uma versão de Voorhees. 


Com a morte de Mandy, Red entra em um estado de desolação total. Ele se torna um homem totalmente fragilizado. Motivado pelo luto, ele entra em um processo de revolta absoluta e orquestra um plano de vingança. E fica evidente que ele não tem a menor chance contra os motociclistas sobrenaturais. Persegui-los parece ser suicídio. Porém, nosso “herói” consegue ter sorte no começo da jornada e, embalado pelo seu instinto de sobrevivência, consegue eliminar dois motoqueiros e isso lhe concede um pouco de tempo para experimentar uma bebida estranha, a qual potencializa seu rancor e lhe concede super poderes. Ele vira uma incrível máquina de matar. A partir disso, Cosmatos subverte a narrativa típica do slasher, a qual costuma apresentar as vítimas como pessoas comuns, que precisam encontrar maneiras de derrotar o monstro e sobreviver até o final do filme. O vilão mascarado é o dizimador de vidas. Em Mandy, porém, os papéis são alterados. Red é o “monstro” e o líder religioso, que brada ser o novo messias, acaba se tornando o ponto mais vulnerável da história. Isolado, sem os seus seguidores para fazer o serviço sujo, Jeremiah é uma presa fácil. 

É muito interessante essa desconstrução de arquétipos proposta pelo diretor. Na minha opinião, essa é a parte mais curiosa. O pai do cineasta, George P. Cosmatos, dirigiu longa-metragens com personagens cheios de testosterona, como Rambo II (1985) e  Stallone: Cobra (1986). Nessa contramão, Panos até mostra um personagem durão no momento da vingança, mas também apresenta o lado sensível de Red. E o faz de forma prolongada. Os grandes brutamontes do cinema até enfrentam perdas, mas normalmente os roteiristas preferem sublimar qualquer tipo de reação mais profunda, pois isso representaria uma leitura que vai contra o papel social do homem, onde expressar sentimentos, como o choro, seriam um sinal de fraqueza. Cosmatos desconstrói isso e mostra toda a dilaceração emocional de seu personagem.


 
Muito se fala sobre a morte de Mandy. Que Panos continua seguindo o velho modelo, onde uma mulher precisa morrer para que uma história seja contada. Mas a representação de Mandy, de um modo geral, não me incomodou. O diretor não objetifica sexualmente a personagem, não escolhe essa direção. Jeremiah a deseja, mas o cineasta não tem esse olhar. Os homens é que estão despidos e vulneráveis. Além disso, mesmo que a morte de Mandy seja extremamente brutal, Cosmato opta em não mostrar o corpo da atriz. Em outros filmes de vingança e até mesmo nos tradicionais slashers, o corpo feminino normalmente costuma ser subjulgado na tela de maneira perversa. 


O rape-revenge na ótica feminina

 


Quando comecei a assistir Revenge (2017), sabendo que o longa era dirigido por uma diretora, fiquei intrigada com os primeiros planos do filme, onde a personagem Jennifer (Matilda Lutz) é objetificada ao extremo. Nos primeiros minutos da película, a câmera focaliza em seus glúteos enquanto ela caminha. Ela dança sensualmente em alguns takes, para o deleite de seu parceiro e dos amigos dele. E, além disso, ela é a amante. Em um filme de terror comum, provavelmente a protagonista seria a primeira pessoa a morrer. Mas a mensagem da diretora Coralie Fargeat é outra. Ela mostra na verdade uma mulher consciente de sua própria sexualidade, que gosta do olhar masculino e está só se divertindo. Mas, graças aos estereótipos femininos, que são vinculados ao “código moral social”, Jennifer acaba sendo estuprada por um dos colegas do seu amante. Justamente por que ele acredita que a sua “dança” na noite anterior não é algo inocente e representou uma espécie de “convite”. 
 
Infelizmente, certas atitudes femininas, mesmo depois de tantos anos de evolução do papel da mulher na sociedade, ainda são vistos de forma embaçada por alguns homens. São leituras equivocadas que, tanto no cinema quanto na realidade, costumam resultar em uma violência justificável contra a mulher. E essa é a crítica da cineasta. Jennifer foi violentada, pois se afastou alguns centímetros de certos pontos do roteiro que lhe garantiriam ser vista como uma mulher "respeitável". E a situação fica ainda pior quando ela rejeita o amigo do amante, um homem rico que, por causa de seu dinheiro, não costuma receber muitos nãos.

A cena do estupro é mostrada minimamente, mas tem um impacto grandioso, pois mostra a condescendência do outro homem que está na casa que, ao invés de ajudar Jennifer, prefere aumentar o volume da televisão para abafar o ato sexual. Os dois concordam, mesmo que silenciosamente, graças ao seu comportamento na noite anterior, que Jennifer “pediu” para ser violada. E, além do mais, ela é o sexo frágil do local e eles estão no meio do nada, ninguém pode ouvi-la. Ela não pode se esconder. Logo, diante dessa situação, os homens assumem o seu lado animalesco e criam o seu próprio tribunal moral. Como eles não precisam estar desempenhando o seu papel social de empresário de sucesso, homem de família e etc, eles sentenciam Jennifer, pois independente do local que a mulher esteja, ela precisa seguir um padrão moral. Os homens estão livres disso. A moralidade, nesse caso, é só uma desculpa para que a jovem seja abusada e possa satisfazer sexualmente um dos personagens. 




Outro ponto que eu acho ótimo no filme de Coralie é como ela altera esses papéis de caça e caçador de forma crível. Em bando, os homens são impiedosos, mas sozinhos estão extremamente fragilizados. Jennifer, por si só, não é uma assassina perfeita. Ela é desmistificada pela diretora, pois tornou-se essa vingadora em uma fração de horas, ela nunca havia matado alguém antes. E sua ânsia de eliminá-los não é, por si só, um ato de heroísmo, mas sim uma forma de garantir sua sobrevivência. Ela é uma heroína para a espectadora, mas dentro das telas é apenas uma mulher tentando sobreviver.  Outro ponto importante é a inversão do male gaze para o female gaze. No confronto final, a personagem de Matilda Lutz enfrenta seu algoz e ele está totalmente despido e vulnerável. Se no começo do filme era Jennifer que estava nessa situação, Fargeat muda o jogo completamente. 




Uma coisa que sempre me incomodou nos rape-revenge é a forma frívola que as mulheres são violentadas. Em A Vingança de Jennifer (1978), considerado um clássico desse subgênero, a protagonista é violentada de forma brutal e, ao invés de procurar a polícia ou se afastar do lugar onde tudo aconteceu, permanece na casa que havia alugado e trama um plano de vingança. Sabemos muito bem que a violência sexual traz um impacto devastador na vida da vítima e que, se isso tivesse acontecido na vida real, Jennifer jamais teria condições de lidar com a situação dessa forma. A personagem do filme Revenge, por sua vez, está destruída pelo estupro e pela quase morte. Mas a narrativa de Coralie enfatiza que ela só permanece no lugar, pois está no meio do nada e só sobreviveu por causa do peyote. Ele proveu a abstração necessária para que ela conseguisse se recuperar do ferimento grave e encontrasse forças para ir atrás de cada um de seus abusadores. Caso ela não tivesse acesso a droga, seria uma presa fácil no deserto. É claro que a diretora correu um alto risco ao dirigir o filme e poderia ter caído na armadilha de apenas reproduzir o mesmo eixo narrativo feito pelos diretores que abordaram o tema. O próprio subgênero possui uma série de clichês e uma formatação complicada. Mas ela foi em frente e percebeu que valia a pena fazer um filme que mostrasse o seu olhar sobre o estupro e a vingança. 


Anne Billson ratifica isso, em um recente artigo no The Guardian. A crítica de cinema questiona se o olhar feminino faz com que a violência sexual seja menos repugnante no cinema. E a resposta mais simples é: não, não faz. Mas, como pontua a diretora Isabella Eklöf, é necessário que mulheres abordem esses temas controversos, “pois nunca vimos eles sendo retratados pela perspectiva feminina”. E por isso que é tão necessário que diretoras adentrem o universo dos mais diferentes subgêneros, principalmente onde existe uma concentração de filmes majoritariamente dirigidos por homens e mostrem o seu lado da história, a sua visão de mundo, a sua experiência pessoal. Eu acredito piamente que, certos assuntos, por mais controversos que pareçam, como o rape-revenge, por exemplo, devem ser desenvolvidos por mulheres, pois os desafios que enfrentamos diariamente em uma sociedade tão machista, nos dão um embasamento maior para falar de temas que tocam o feminino, com maior verossimilhança. Como disse Issa López, diretora de Os Tigres Não Têm Medo, em entrevista ao blog: “No início, o visual feminino é diferente por natureza. Como não o vimos tantas vezes no gênero, traz um frescor às alegorias cansadas, o que já era muito necessário. Não há novas histórias, mas há novas maneiras de contá-las ... e acho que é isso que as cineastas trazem para a mesa".


Voltando ao tema inicial desse texto, realmente acredito que Mandy e Revenge são exemplos importantes de como é possível subverter narrativas que existem há muitos anos e que parecem possuir um formato rígido. Os diretores mostram nesses dois filmes que é possível confeccionar novos elementos para subgêneros tão castigados pelo tempo, como o slasher e o rape-revenge. Podemos não concordar com suas abordagens, pois o ato de assistir um filme envolve muitos fatores, como o gosto pessoal do espectador, seu lugar no mundo, sua bagagem cultural e etc. Mas uma coisa temos que ter em mente: essas películas são importantes e têm algo a nos dizer sobre o momento que estamos vivendo e as representações dos papéis sociais. Os gêneros cinematográficos são organismos vivos e algumas partes de sua estrutura não devem ser eliminadas puramente por serem tidos como misóginos ou enfrentarem outros problemas. O que esses subgêneros realmente precisam são filmes como Revenge, Mandy. Necessitam de diretores(as) que estejam dispostos a experimentar mais e não apenas reproduzir velhos padrões. E principalmente, que existam estúdios que permitam que essas ideias mais progressistas possam desabrochar.