O terror chileno: Entrevista com Rene Weber, diretor do FIXION Fest



Em continuidade ao projeto Final Chica, vamos hoje até o Chile para bater um papo com Rene Weber, diretor do festival de cinema fantástico chileno FIXION. A quinta edição do evento ocorreu em maio desse ano e é um espaço muito importante de divulgação do cinema insólito em Santiago. Nessa entrevista, Rene fala um pouco sobre sua vasta experiência com filmes de gênero em terras chilenas, seu envolvimento com a mostra cinematográfica e, é claro, o cinema de terror feito no país.


[FG] Quando você começou a se envolver com festivais de terror? Você sempre gostou do gênero?

Minha história pessoal relacionada ao gênero começou há muito tempo. Desde o fim dos anos oitenta e começo dos anos 90, sempre estive ligado de uma ou outra maneira com seu desenvolvimento, já que pertencia a princípio a SOCHIF (Sociedad Chilena de Fantasía y Ciencia Ficción) e posteriormente, junto a um grupo de amigos, formamos o grupo Ficcionautas Asociados. Assim, estive produzindo eventos (como exposições, feiras, encontros, festivais), editando fanzines, revistas, colaborando com jornais, rádio, televisão, sites e em outras formas de difusão e abrindo espaços para as diferentes manifestações onde esses gêneros podem se desenvolver: cinema, HQs, livros, jogos de videogame, etc.

[FG] Como surgiu o FIXION Fest? Você poderia falar um pouco como funciona o festival?

O FIXION Fest é a causa natural de estar tantos anos relacionado com esse mundinho. De ter feito muito antes de organizar o primeiro festival, já tinha uma ideia de como organizar um festival de cinema de gênero que fosse internacional e competitivo, porque anteriormente tinha organizado ciclos de cinema e sempre a ideia esteva circulando. Assim, durante uma viagem para Buenos Aires, me reuni com os organizadores do Buenos Aires Rojo Sangre (BARS), os quais me deram todo o apoio necessário, o que foi fundamental para organizar o primeiro FIXION. Ele deu início em como seria tudo mais tarde e atualmente temos 5 edições organizadas e estou preparando a sexta para 2020. O festival é, antes de mais nada, uma atividade autoproduzida e autofinanciada. Embora nas edições anteriores fosse cobrada uma taxa de entrada para algumas atividades, já neste ano todas as atividades eram gratuitas. A estrutura organizacional tem sido basicamente a mesma desde o início, estando no topo como diretor e com uma equipe de produção muito pequena, que muda a cada ano.

[FG] Eu tive algumas informações que a primeira película de terror chilena foi Ángel Negro, dirigida pelo Jorge Olguín em 2002. Por que você acha que tardou tanto tempo para que o Chile tivesse seu primeiro filme?

Bem, Ángel Negro é considerado o primeiro longa-metragem de terror, mas anteriormente houveram outras tentativas de fazer cinema de gênero. Por exemplo, Chilean Ghotic é um média-metragem do ano de 2000. La Dama de La Muerte, que é um longa de 1946 que bem, não é terror tipo Hollywood, mas é um thriller que perfeitamente pode ser encaixado dentro de uma definição ampla de terror. Também há outros casos em que dão-se mesclas de gênero, como La Mano del Muertito de 1948, uma mistura entre comédia e terror, muito ao estilo da dupla Abott e Costello. Ou El Diamante del Maharajá (1946), também mesclando comédia com certos elementos de fantasia. Durante o período do cinema mudo, muito cinema de guerra foi feito, principalmente dramas ambientados durante a Guerra do Pacífico (também conhecida como a Guerra Salitre), um conflito que ainda permanecia fresco na memória. Estas produções foram filmadas principalmente em Iquique e Antofagasta. Infelizmente tudo foi perdido, apenas os comunicados de imprensa permanecem. Acho que a demora em encontrar o cinema 100% puro no Chile se deve principalmente a um problema geracional e aos custos de produção. Gerações anteriores de cineastas estavam mais focadas em cinema dramático, documentário ou político. Embora não se entenda por que ninguém pensou em fazer um filme de terror, visto que sempre atrai atenção e a venda de ingressos costuma acompanhá-los. Posteriormente, a massificação de sistemas digitais (câmeras, edição, áudio, efeitos visuais, etc.) possibilitou reduzir significativamente os custos de produção e diversificar os temas. Atreveu-se a fazer algo diferente.

[FG] O Chile passou por uma sangrenta ditadura militar e esse fato inspirou várias produções nacionais e internacionais. O fato de vocêS terem vivido tantos anos em um ambiente tão pesado e perigoso contribuiu de alguma forma para esse atraso na produção de filmes de terror?

Claro que sim! Durante a ditadura cívica-militar, todas as expressões artísticas foram duramente reprimidas, censuradas e vigiadas. E o cinema chileno não escapou disso. Embora estreava nos cinemas de vez enquanto alguma película chilena, não podia se falar de uma indústria cinematográfica. Eram produções absolutamente independentes, sem um orçamento maior, que tentavam preencher, de alguma forma, o vazio que existia. Além disso, deve-se ter em mente que durante essa data havia (e ainda existe) o Conselho de Qualificação Cinematográfica, que é um organismo que controlava, com mão de ferro, o que podia ou não ser visto nos cinemas. Assim, para um cineasta se aventurar a fazer algo novo dentro daquele pequeno mercado era um grande risco, já que ele tinha que investir muito na produção, pois também era possível que fosse censurado e simplesmente não pudesse ser exibido nos cinemas. Durante a ditadura militar (1973-1990), não se realizou nada de cinema de gênero. Embora no final do regime houvesse algumas pequenas pistas do cinema chileno tentando fugir do habitual da época: drama ou comédia. Por exemplo: The Lawless Land (1988), uma coprodução chilena/norte-americana de ficção científica, Hay Algo Allá Afuera (1990), que foi filmada completamente a noite, com alguns elementos distópicos e surrealistas ou El País de Octubre (1990), um exercício de cinema experimental.

[FG] Se você pudesse indicar um filme de terror chileno para alguém que nunca assistiu a nenhum dos filmes do país, qual você acha que representa os longa-metragens feitos no Chile?

Dentre todos os títulos de cinema de gênero que foram realizados até o momento no Chile, creio que o melhor exemplo para mostrar a um neófito é Chilean Gothic (2000). Se bem que não é um longa-metragem, mas sim um média-metragem que dura 40 minutos. Esse título reflete muito bem a direção que o incipiente cinema do gênero chileno deveria ter tomado. O roteiro é uma adaptação de O Modelo de Pickman do H.P Lovecraft, que teve que superar uma série de dificuldades antes de ser rodado em 16 mm. Tem uma excelente fotografia, música e atuações, o que o faz ser um título chave dentro da filmografia nacional. É, de fato, a primeira película de terror chilena. Todo um mérito que superou a passagem do tempo e transformou-o em um filme cult por tudo que envolveu em sua realização.

[FG] O que você acha dessas produções chilenas/estadunidenses, como Aftershock, Knock Knock, Madre e The Stranger? Uma coisa que eu acho interessante sobre eles é que eles foram estrelados por atores que fizeram comédia no Chile. Você gostou do resultado?

Não, por nada. Eu acho que eles não são títulos que valem a pena ver. São produções muito comerciais, de consumo rápido e fáceis de esquecer. Eles são feitos para um público não muito exigente, que só procura um pouco de distração momentânea. Na verdade, esse tipo de cinema não dá muito para parar e fazer uma análise mais aprofundada.

[FG] Quais são os subgêneros mais abordados nos filmes de terror chilenos?

Felizmente, muitos subgêneros foram abordados, o que permitiu abordar uma infinidade de tópicos. Nós temos todo o arco de recursos dentro de uma linha específica: zumbis, assassinos, monstros, fantasmas, vampiros, viajantes do tempo, robôs, etc, etc, etc.

[FG] Como você avalia a produção de filmes de terror no Chile?

Se nos referirmos aos níveis de produção, em termos do orçamento total para a realização de um filme, no momento eles são muito baixos. Quase todas as fitas são autoproduzidas e autofinanciadas, então o dinheiro para fazer tudo isso vem dos mesmos cineastas e da equipe de produção entusiasmada. Ocasionalmente, aparece um título que é lançado comercialmente com um orçamento ligeiramente melhor do que o mostrado no cinema independente. Pelo menos o apoio estatal a essas iniciativas aumentou, o que permitiu que a parte técnica e artística de um projeto fosse melhorada.