[Especial Robert Englund] A Hora do Pesadelo: Os Guerreiros dos Sonhos (1987) - Direção: Chuck Russell


 



Uma frase da série Lovecraft Country resume muito bem o meu relacionamento com A Hora do Pesadelo 3 – Os Guerreiros dos SonhosStories are like people. Loving them doesn't make them perfect. You just try to cherish them, overlook their flaws”.

Eu sou muito fã do Wes Craven e, toda a vez que eu penso em A Hora do Pesadelo 3, eu lembro do quanto a New Line foi desleal com o diretor na confecção dessa película. Wes estava em uma situação financeira muito complicada quando gravou A Hora do Pesadelo (1984). Então, ele acabou cedendo o personagem para a produtora. A empresa podia fazer qualquer coisa com ele, inclusive o segundo filme. Brincadeiras à parte, muita gente não gostou dos rumos da franquia, apesar do grande sucesso comercial de A Hora do Pesadelo 2 (1985). Então, eles resolveram abandonar o clima puritano “o amor vence Freddy”, trazendo de volta Nancy Thompson para o jogo. E quem melhor entende a heroína? Seu criador, Wes Craven. Por isso, Robert Shaye ligou para ele e ofereceu o filme para que ele pudesse dirigir. Como já estava envolvido com A Maldição de Samantha (Deadly Friend), seu primeiro longa-metragem em um grande estúdio, o cineasta disse que não poderia assumir a película. Mas sugeriu uma ideia, a qual foi aprovada. Ficou acertado que ele escreveria o roteiro. Wes juntou forças com Bruce Wagner e eles imaginaram esse universo de guerreiros dos sonhos, com uma estrutura de metalinguagem. Depois que Craven mandou o roteiro para a produtora, eles nunca mais entraram em contato com ele. O script foi modificado e reescrito por Chuck Russell e Frank Darabont. E além disso, Russell seria o diretor. Como contei no texto sobre o primeiro longa, Chuck plagiou o roteiro de A Hora do Pesadelo no longa A Morte nos Sonhos (Dreamscape). Craven, na época, estava prestes a fechar seu primeiro grande contrato com um estúdio. Quando a Paramount soube sobre o filme de Russell, eles desistiram de lançar o projeto. Robert Shaye sabia disso. E, mesmo assim, chamou Russell para dirigir o filme roteirizado por Wes. E, não contente, mandou que Russell alterasse o que Craven tinha escrito. Depois que descobri esse detalhe, passei a ter sérios problemas para apreciar o filme. E eu acho que, se alguém tivesse feito isso comigo, eu jamais voltaria a trabalhar com um profissional de tão pouco caráter como o produtor da franquia A Hora do Pesadelo. Mas Wes o perdoou e retornou para o sétimo filme, Novo Pesadelo. Então, acho que posso tentar ignorar essa questão. Pelo menos para escrever esse texto.

A Hora do Pesadelo 3
é o filme mais interessante da franquia sob o ponto de vista onírico. O plot do longa está centralizado em um tema controverso. Os jovens de Springwood começam a se matar e são levados para um hospital psiquiátrico. A franquia A Hora do Pesadelo sempre se conectou com o que estava acontecendo na América naquele momento. Em 1987, quando o filme foi lançado, as taxas de mortes por suicídio nos EUA, principalmente entre rapazes entre 15 e 24 anos, estavam aumentando bruscamente. Especialistas da área da psiquiatria creditavam essa elevação aos seguintes fatores: falência das famílias, uso de drogas, falta de oportunidades de educação e emprego, além do acesso mais facilitado para armas de fogo. Não é à toa que no longa-metragem temos vários tipos de personagens, com os mais diferentes backgrounds. E o que eles têm em comum? A falta de esperança, pois estão sendo caçados por um monstro e ninguém consegue ajudá-los. Eles lutam com os seus próprios demônios, como Taryn (Jennifer Rubin), que tenta se recuperar de sua adição em heroína, uma verdadeira epidemia que varria os EUA na época. No meio de tudo isso está Freddy, que tenta tirar vantagem de todas as fragilidades, sonhos e aptidões dos adolescentes, para matá-los. Dois médicos tentam ajudá-los a superar seus problemas. Para eles, o grupo está sofrendo de uma espécie de histeria coletiva. Nancy Thompson (Heather Langenkamp), a sobrevivente do primeiro longa, retorna para a franquia como uma psicóloga e passa a atuar no hospital Westin Hills, e ainda demonstrando o mesmo lado maternal do primeiro filme, tenta ajudar os jovens a livrarem-se de Freddy, formando um esquadrão de guerreiros contra o monstro. Eles aprendem a canalizar os seus poderes oníricos para tentar derrotar o vilão. É a única chance que possuem para sobreviver. Mais uma vez, os adultos, que deveriam protegê-los, falharam. No hospital, os especialistas acreditam que a onda de pesadelos é um sintoma de problemas reais dos adolescentes. Que são cicatrizes psicológicas e questões sexuais mal resolvidas. E mesmo com a pilha de corpos se formando na ala, a médica responsável continua prescrevendo sedativos para os jovens. Ela é a melhor ajudante que Freddy já teve em toda a franquia. A mãe de Kristen não é muito diferente e acredita que a filha está tentando chamar a sua atenção. Até mesmo Nancy, quando procura por seu pai, que agora trabalha como segurança e tornou-se alcoólatra, continua tendo dificuldades em ser ouvida. Ela pede que ele a ajude a encontrar os ossos de Freddy. Mais uma vez ele a ignora: “eu já perdi muito com essa história”. Ele só aceita mostrar os restos mortais do monstrengo para o médico do hospital, pois ele o pressiona. Quando o esqueleto de Krueger ataca Donald (John Saxon), ele finalmente cai em si e percebe que o assassino estava por trás de todas as mortes. Se ele apenas tivesse escutado Nancy. Tantas mortes poderiam ter sido evitadas se alguém tivesse realmente ouvido os jovens de Springwood.

Mas nem todos os elementos do universo adulto estão perdidos. Nessa tentativa de resgate da moralidade perdida dos anos 70, se no primeiro longa nem a religião pôde proteger os jovens da ameaça do bicho-papão dos sonhos, em A Hora do Pesadelo 3, Krueger é derrotado ao ter um sepultamento cristão. O que os cidadãos do bem não poderiam prever era o poder de ressurreição da urina do cão de Kincaid (Ken Sagoes). Esse líquido “sagrado”, maior do que as águas do Rio Jordão, fará Freddy ressurgir das trevas para o próximo episódio da franquia.

Falando um pouco sobre os aspectos técnicos, a película é incrível. A maquiagem do Freddy é perfeita. Os cenários são muito bons, principalmente a casa da rua Elm. A direção de fotografia do Roy H Wagner oscila entre tons azuis, vermelhos e sépia, e é construída de uma forma muito sombria. Quando Freddy aparece em cena, Roy faz escolhas bem diversas. Ainda existem as cenas mais trevosas, dramáticas, mas acho muito interessante que ele tenha optado em retirar o Freddy Krueger da escuridão total em alguns momentos, colocando ele em cenários bem iluminados. Isso só foi possível, pois os efeitos visuais da película são excelentes. O vilão desfila na tela em sua melhor versão. Até mesmo a cena do esqueleto de Krueger, que tem uma vibe meio Ray Harryhausen, envelheceu muito bem. Aqueles carros buzinando, as luzes piscando. É algo muito bem orquestrado. Um verdadeiro pesadelo!
 






















































































 
 
 

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