Final Chica: Cinema de Terror Argentino





A partir das minhas entrevistas e leituras sobre o cinema argentino de terror, eu dividiria o mesmo em três partes:

a) Cinema clássico de terror;


b) exploitation, período ditatorial, e anos 90;


c) A-horror.



Cinema Clássico de Terror

El Vampiro Negro (1953)

O fantástico apareceu pela primeira vez na filmografia argentina através do longa-metragem El hombre bestia o las aventuras del Capitán Richard (1934), dirigido por Camilo Zaccaría Soprani. Segundo a pesquisadora Carina Rodríguez, em seu livro El cine de terror en Argentina: producción, distribución, exhibición y mercado (2000-2010), o filme, rodado na cidade de Rosario, foi considerado perdido até o ano de 2002, quando finalmente fora recuperado. A película é uma adaptação do livro O Médico e o Monstro e conta a história de um aviador que sofre um acidente na floresta e, depois de viver por muitos anos na selva, torna-se “selvagem”. Ele é capturado por um cientista maluco e torna-se sua cobaia em um experimento. Ele acaba se transformando em um ser monstruoso que persegue mulheres indefesas.
O primeiro filme “oficial” de terror, dito puro, viria a aparecer somente em 1942. Trata-se de Una Luz en La Ventana, dirigido por Manuel Romero. Muito influenciado pelo que estava sendo produzido em Hollywood, o longa conta a história de uma enfermeira que é contratada para cuidar de uma mulher paralítica em uma ilha. Mas o que parecia ser uma situação banal, acaba por ter um desfecho bem impressionante, já que a cuidadora passa a ser perseguida por um homem monstruoso. O filme marca a estreia do ator espanhol Narciso Ibáñez Menta no cinema argentino.
Depois disso, segundo a pesquisadora Carina Rodríguez, a Argentina ficaria quase uma década sem produzir filmes de terror, voltando apenas no ano 1951 com o longa El Extraño Caso del Hombre y la Bestia, dirigido por Mario Soffici, que seria uma nova adaptação de O Médico e o Monstro. Nessa época foram lançados alguns filmes noir que possuíam elementos do terror, os quais foram batizados de negróticos pelos(as) pesquisadores Nadina Olmedo e Osvaldo Di Paolo. O termo negrótico seria a convergência entre o noir e os gêneros góticos. Um exemplo disso na filmografia argentina seriam os filmes El vampiro negro (1953), dirigido por Román Viñoly Barreto, Si Muero Antes de Despertar e No abras nunca esa puerta (1952), ambos filmados por Carlos Hugo Christensen.
O professor Gabriel Andrés Eljaiek Rodríguez, em seu livro The Migration and Politics of Monsters in Latin American Cinema, aponta que as histórias sobre vilões selvagens marcaram o começo do cinema de terror argentino. Segundo Rodríguez (2018, p.164) “o clássico cinema de terror argentino não mostra horrores sobrenaturais. Não há fantasmas, vampiros, licantropos ou atos de bruxaria. O monstro por excelência no horrível cinema argentino, durante a Idade de Ouro, foi o selvagem homicida”.


Exploitation, Período Ditatorial, e Anos 90

Nos anos 60, assim como boa parte da América Latina, a Argentina dedicou-se a produção de filmes exploitation. A maioria deles eram destinados ao mercado exterior. Foi nessa leva que surgiu o longa El ángel de la muerte (1975), dirigida por Horacio Fredriksson e Michael Findlay. A película recebeu o nome no exterior de Snuff, inaugurando essa vertente dos filmes onde as mortes são supostamente reais. Segundo Carina Rodríguez, outro nome importante do período é o empresário e produtor peruano Enrique "Ricky" Torres Tudela. Ele financiou em solo argentino quatro filmes falados em inglês, visando o mercado internacional: La ruleta del diablo (1968), também conhecido como La ciudad de los cuervos, dirigido por Carlos Cores — o qual nunca teve um lançamento comercial, Seis pasajes al infierno (1975), Allá donde muere el viento (1975), dirigidos por Fernando Siro, e La casa de las sombras (1976), obra de Ricardo Wullicher. Além dos atores argentinos, algumas produções foram protagonizadas por atores vindos dos Estados Unidos. Yvonne de Carlo, conhecida pelo seu trabalho na série The Munsters foi a estrela de La casa de las sombras. Tippi Hedren, que havia sido a protagonista de Os Pássaros (1968), longa de Alfred Hitchcock, participou de Allá donde muere el viento. 

 
Sangre de Vírgenes (1967)

Outro nome importante desse período é o diretor Emilio Vieyra. Ele dirigiu os longa-metragens Placer Sangriento (1965), La Venganza del Sexo (1966), La Bestia Desnuda (1967) e Sangre de Vírgenes (1967). Todos os filmes eram falados em inglês e também destinados ao mercado internacional. A pesquisadora Nadina Olmedo desenvolveu uma pesquisa sobre um filme de Vieyra em particular: Sangre de Vírgenes. Em seu artigo "De los Cárpatos a la Patagonia o La Mudanza de Los Vampiros: Gótico y Exploitation Cinema en Argentina", disponível no livro Horrofílmico (2012), Olmedo mostra como esse exemplar do latsploitation quebrava com uma série de paradigmas dos filmes de vampiros tradicionais. 

Sangre de Vírgenes soube romper na época com certas convenções do gótico, ao buscar o efeito paródico e o humor em vez do terror, ao reverter o uso de cores escuras e sombrias por brilhantes e estridentes, ao desbancar a clássica donzela pura e casta por uma mulher sexualmente liberal, com roupas leves e até alegre pelo ataque vampírico, o qual não acontece mais no pescoço, mas nos seios, comemorando e, de alguma forma, legitimando o lado sombrio e cruel da vida que também põe em xeque o binarismo clássico do bem e do mal; e com tudo isso, usando essa estética como um meio de exaltar a morbidade de um espectador que procurava entreter ao invés de assustar. (OLMEDO, 2012, p.227).

   

DITADURA


Durante os períodos ditatoriais da Argentina, filmes que continham violência e cenas de sexo eram censurados duramente e poderiam gerar prisão. Com isso, a produção só voltaria com o estado democrático. Mas esse retorno ocorreu de forma discreta. Segundo a coleta de dados da professora e pesquisadora Carina Rodríguez, até o final da década de 90  a produção argentina de terror chegou a trinta e seis filmes: vinte e oito longa-metragens puros e nove películas que mesclavam terror com outros gêneros, como comédia, noir, etc. Mas foi a partir do final da década de noventa que as coisas começaram a mudar radicalmente no cenário do cinema de terror argentino, graças ao cineasta Pablo Parés e sua turma.

A-HORROR

Jennifer's shadow (2004)


A virada do cinema de terror argentino aconteceu a partir do filme Plague Zombie (1997), dirigido por Pablo Parés (que tive o prazer de entrevistar aqui no blog) e Hernán Sáez. O longa teve um orçamento baixíssimo, mas foi um grande sucesso. E a produção incentivou a explosão de um movimento cinematográfico que transformou o cinema de terror argentino. Jovens, com câmeras amadoras,  estudantes do Ensino Médio e de universidades argentinas, começaram a produzir filmes e, entre 2000 e 2010, foram contabilizados por Carina Rodríguez mais de cem filmes criados por esses cineastas.
Para entender um pouco esse fenômeno, o qual eu sou mais familiarizada, pois tive a oportunidade de assistir alguns filmes produzidos por esses diretores, entrevistei o professor e pesquisador Jonathan Risner. Ele escreveu um livro sobre o cinema de terror contemporâneo argentino, chamado Blood Circuits, onde ele analisa os três vieses de produção desse grupo, o qual é chamado internacionalmente de A-horror: o eixo comercial mainstream, que já recebeu patrocínio do INCAA (o órgão regulador do cinema argentino), a produção que é destinada para o mercado internacional (falada em inglês), e a cena independente feita por fãs, como o longa Gorevision (2004), dirigido por Germán Magariños. A entrevista com o Risner é muito interessante, pois ele conhece muito sobre cinema de terror latino. Ele mergulhou de cabeça por muito tempo nesse universo. Então ele fornece um panorama bem completo de como esse grupo se formou na Argentina, quais foram as influências desses cineastas, o que levou a essa produção expressiva e, além dessa conversa muito bacana, tive a oportunidade de conversar com diretores que foram fundamentais nessa virada do cinema argentino de terror: Adrián García Bogliano, Gonzalo Calzada e, Demián Rugna.


  ALGUNS FILMES DE TERROR ARGENTINOS


|El hombre bestia o las aventuras del Capitán Richard (1934) |Visitante de Invierno (2008)|  Sudor Frío (2011) | Penumbra (2012) |Si muero antes de despertar (1952) |Plaga Zombie (1997)| |Grité una noche (2005)|El Extraño Caso del Hombre y la Bestia (1951) |El vampiro negro (1953) |No abras nunca esa puerta (1952) |Extraña Invasion (1965) |Placer Sangriento (1965)| |La Venganza del Sexo (1966) |La Besta Desnuda (1967)|36 Pasos (2006)|Sangre de Vírgenes (1967) | La casa de las siete tumbas (1982) |Mingo y Aníbal contra los fantasmas (1985) | Mingo y Aníbal en la mansión embrujada (1986) |Los matamonstruos en la mansión del terror (1987)| |Galería del terror (1987) |Alguien te está mirando (1988)| Obras maestras del terror (1960) | El inquisidor (1975) |Charly - Días de sangre (1990) | Nunca asistas a este tipo de fiestas (2000)| Goreinvasion (2004)| Death Knows Your Name (2007 |Jennifer's Shadow (2004)| La memoria del muerto (2011) | Nunca más asistas a este tipo de fiestas (2010)| Habitaciones para Turistas (2004)|